quinta-feira, 9 de julho de 2020

Livro 17/53

A Conspiração Contra a América - Livro - WOOK



A Conspiração contra a América, de Philip Roth

Temos cá em casa há anos, em inglês (do Tê, que depois de o ler comprou a Mancha Humana, que eu adorei). Nunca me chamou.
Até acho estranho como é que nunca tinha lido nada deste autor até ao ano passado - tem tanta coisa escrita, e coisas tão diferentes, não sei como me foi passando ao lado.
Este exemplar em português foi herdado do meu pai, e completamente aprovado por ele. Não sei porquê mas nunca lhe peguei, nas inúmeras vezes que lhe pedi livros emprestados, e tantas vezes ele o recomendou. Talvez me assustasse o número de páginas, ou o facto de ser uma historia hipotética sobre um assunto que eu não domino (política dos Estados Unidos).
Fosse o que fosse, foi agora o momento.
Curiosamente apanhei a meio um recibo do meu pai com data de Julho 2019, pelo que ele o terá lido por esta altura há um ano atrás (fase aliás em que devorava livros à velocidade de um por dia ou quase, porque estava em casa a recuperar de cirurgias).

Ora então temos os Estados Unidos nos anos 40, e temos uma história de como a História teria sido diferente se por lá houvesse um presidente anti-semita e apoiante do Hitler. O narrador é um menino de 9 anos, judeu.
Está muito bem construída e é arrepiante nos tempos que correm ler uma ficção que sabemos que pode tornar-se realidade em menos de nada - basta uma campanha bem conseguida e todos votamos na pessoa errada sem fazer ideia.
Há algumas partes mais políticas que tornam a leitura menos agradável, até porque as personagens são todas reais (mas algumas eu não faço ideia quem sejam, por isso no final há uma biografia de cada um), e houve ali pormenores no final que me pareceram um bocadinho forçados - mas de resto, está impecável.
Dei 4 estrelas e recomendo.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Sobre Julho de 2020

Costuma ser um mês bem rentável, com muito trabalho por estes lados.
Quis o destino que este ano assim não fosse.
Resolvi tirar alguma coisa positiva de toda esta situação e meter-me a fazer uma formação que estou para fazer há anos (desde 2014, precisamente), agora totalmente online. São 90 horas, nunca na vida estando a trabalhar me iria meter num centro de formações ao fim do dia, foi mesmo de aproveitar esta oportunidade - acredito que seja a coisa positiva desta pandemia, este boom de conferências, formações, cursos, palestras, tudo do conforto do sofá - já assisti a algumas (muito poucas, confesso) com gente de todo o lado que nunca aconteceria presencialmente, e que interessante que foi!
Assim sendo este Julho vai ser dedicado à formação - já fiz trabalhos, tpc, fóruns e até testes. No fundo, é um regresso à escola.

Os miúdos normalmente saltitam de atl em atl... Este ano entre a pandemia e o pandemónio que vai na conta bancária vão ficar em família. Esta semana estão os mais velhos no Alentejo a viver aventuras debaixo de 48 graus (e ficam a falar nisso o ano inteiro!).

O fim do mês talvez traga uma luz ao fundo do túnel para o meu trabalho, mas ainda sem grandes certezas.

Até lá fizemos a candidatura da mais nova ao pré-escolar, tivemos uma odisseia a matricular as crianças no portal online, fomos devolver os manuais à escola e depois recebemos um mail a dizer que afinal teremos de os ir recolher, e recebemos as notas fantásticas dos nossos meninos - que este período, como sabem, são a dividir com os pais.

2020 já vai a mais de meio, malta.
Já não falta tudo.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Fim das (j)aulas

Custou.
Não foi fixe.
Eu não gostei e os meus miúdos detestaram.

Para memória futura ficam frases como "eu pagava para ir para a escola!" e "eu ia para a escola ao sábado e domingo se fosse possível!" do mais velho; e da do meio ontem (de férias, portanto) suspirava que queria era ir para a escola.
Escola é muito mais do que matéria e conteúdos, escola são todas as pessoas que fazem parte dela, e reduzir a escola às tarefas através do computador foi um sacríficio para todos cá em casa.

Enquanto mãe e de certa forma ligada à educação, confirmei aquilo que já sabia: os pais não podem ser professores dos filhos, e as crianças precisam do apoio de um adulto a orientar o trabalho, coisa que nem todos os paisa tinham disponibilidade para fazer. Não há nada que substitua o contacto directo com o professor e os colegas e ponto final!

Portanto, genericamente não correu mal, mas por cá não ficamos nada fãs deste tipo de ensino.

Coisas boas:
A do meio desenvolveu imensas capacidades para lidar com o computador - era uma infoexcluída e lá aprendeu a fazer as coisas todas que era preciso. Também se organizou muito bem a trabalhar - o professor mandava os trabalhos todos da semana, e eles é que geriam o que faziam - portanto ganhou ali uma grande autonomia.
O mais velho aprendeu também a trabalhar com algumas ferramentas, como o power point e o word, e permitiu-nos perceber que tem autonomia zero e que temos de andar em cima dele se não ele não faz o que quer que seja...
Ambos ficaram a valorizar a escola como nunca!

Coisas más:
Desmotivação geral e total dos dois.
Vontade de aprender zero, de se sentar dia após dia após dia ao computador para fazer os trabalhos (coisa que eu também percebo...).

Por mim nunca imaginei que as escolas fechassem.
Quando fecharam achei que iriam reabrir depois das férias da Páscoa, e andei ali até ao dia 4 de Maio (tinham dito que era o limite) a ver se as escolas iriam reabrir.
Jamais imaginei que íamos mesmo fazer um período inteiro em casa, e no entanto, fizemos.
Foi uma experiência única!
Espero mesmo que tenha sido a única vez e que não se volte a repetir...

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Livro 16/53

Tudo É Possível - eBook - WOOK


Tudo é possível, Elizabeth Strout

Daqueles que estava na lista há mais de um ano, depois de ter lido O meu nome é Lucy Barton da mesma autora.
Li-o emprestado da minha irmã, numa pausa dos livros herdados do meu pai que é o que tenho lido (e continuarei a ler por um bom tempo).

Não me marcou tanto como o primeiro, mas é um livro que confirma o brilhantismo da autora enquanto contadora de histórias.
É um conjunto de histórias das diversas personagens que vivem na aldeia onde Lucy Barton cresceu, começando com o contínuo da escola, os seus irmãos, os primos que também eram muito pobres na infância, as colegas que a desprezavam, as pessoas para quem a mãe fazia trabalhos de costura.
No fundo é pegar nas personagens secundárias do primeiro livro, e contar a sua história, desde o tempo em que a própria Lucy era criança, até à actualidade.

Neste tempo de confinamento tenho tido alguma dificuldade em me entregar a 100% a um livro, e o meu critério para atribuir 5 estrelas é o não conseguir parar de ler - coisa que ainda não aconteceu com nenhum livro desde o início da quarentena.
Não sei se daria 5 estrelas noutra altura, mas apesar de ter sido o livro que li em menos tempo desde Março, ainda assim não senti aquela urgência de ter de querer devorar o livro até à última página.
Assim sendo, apesar de  ter adorado e de o recomendar vivamente, dei 4 estrelas, que corresponde a um 4,5 ou até um pouco mais.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Livro 15/53

O Anjo Ancorado by José Cardoso Pires


O Anjo Ancorado, José Cardoso Pires

Mais um autor (clássico) de quem eu nunca tinha lido nada.
É quase como um conto, uma pequena história, que tal como o autor refere, se baseia em descrições.
Uma história simples, sem muito para dizer, mas que acaba por ser um bom retrato de Portugal nos anos 50.
Lê-se bem, entretém, não sendo nada do outro mundo.
Dei 3 estrelas e recomendo.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

42 anos

Resolvi assumir que os meus anos começaram na sexta, e não foram só no domingo (que é de facto o meu dia).
Isto porque tive o melhor presente de sempre: estar novamente reunida com as minhas irmãs - depois de quase 3 meses, sendo que a última vez que tínhamos estado juntas foi também num dia difícil e emotivo. Ora caramba, fazer luto em confinamento, com tudo o que tem de bom, é difícil como tudo (nem imagino o que é ser filho único, é que os irmãos são mesmo os únicos que nos entendem nestas alturas!)
Assim sendo o fim de semana dos meus anos começou com um reencontro ao almoço de sexta feira - com direito a abraços e tudo (há lá coisa melhor, e que dávamos por garantida?).
Sábado houve praia, na nossa praia, com os sobrinhos quase todos, e domingo o verdadeiro mega piquenique (e viva o desconfinamento, sem darmos por ela éramos 40 pessoas, oooops!)

Entrei então nos 42 rodeada da minha gente, nos meus sítios preferidos, a comer e a beber, com sol e calor.
Que sejam melhores que os 41 (que começaram com o meu pai no hospital e acabaram em quarentena depois de tudo o que se passou), não é pedir muito nem será muito difícil, mas ainda assim, é o que peço.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Mais do mesmo

O que funciona num dia, não funciona no outro.
Uns dias começam bem e corre tudo bem, outros há que começam bem e entortam logo a seguir.
Uma amiga partilhou no instagram os seus números da quarentena - um resumo do que fez, leu, voltas que deu - a mim só me ocorre fazer as contas ao número de sopas, às máquinas da roupa estendidas e apanhadas, dobradas, arrumadas nas gavetas de cada um, mais aos almoços-jantares-almoços-jantares todo o santo dia... Tudo coisas que sou eu a fazer normalmente, mas normalmente faço-o no intervalo de outras coisas, e faço-o sozinha em casa, o que faz toda a diferença.
Esta domesticidade não combina mesmo comigo.
E este estudo em casa também não. Nem comigo nem com eles.
Para a semana tentaremos uma abordagem diferente.
Vamos ver.
Até lá é "só" mais um mês de aulas em casa, e o resto logo se vê....

domingo, 24 de maio de 2020

Livro 14/53

 O Estranho Desaparecimento de Esme Lennox - O, Maggie O' Farrell ...


O estranho desaparecimento de Esme Lennox, de Maggie O'Farrell

Finalmente um livro que me prendeu nesta quarentena.
Uma história perturbadora de uma família cheia de segredos, onde temos mais uma vez a questão do papel da mulher, da saúde mental, da importância do que a sociedade pensa, do quão pouco sabemos de facto sobre os nossos antepassados.
Escrito a muitas vozes, da tia avó desaparecida, à sobrinha-neta, à avó com Alzheimer que debita memórias tipo manta de retalhos.
Gostei, entusiasmei-me, que foi coisa rara nesta quarentena (também pode ser do desconfinamento, ler na praia é outra conversa), e só fiquei um pouco desiludida no final.
Dei 4 estrelas e recomendo.

Do desconfinamento

Por muito que vamos à praia, estejamos com amigos, e por muito que aparentemente as coisas estejam a voltar ao normal, enquanto houver escola em casa o desconfinamento não está completo e a normalidade não está normal.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Livro 13/53

Soldados de Salamina / Soldiers of Salamis - Livros na Amazon ...


Soldados de Salamina, Javier Cercas

Um episódio concreto na guerra de Espanha é investigado por um jornalista/escritor.
Temos a história da guerra e a história da investigação e do jornalista - assim sendo, houve partes que li num instante, e outras que andei ali a engonhar.
O facto de não saber muito da guerra de Espanha também não ajudou muito (no início).
Mas há muita coisa interessante, a questão de na guerra não ser só maus e bons, de como o acaso tantas vezes dita o futuro - se um segundo fosse diferente, a História seguia um rumo diferente.

Dei 3 estrelas, é um 3,5 e recomendo.

Livro 12/53

Um Chapéu para Viagem - Livro - WOOK



Um chapéu para a viagem, de Zélia Gattai

Com esta história da quarentena e do confinamento, e de todas as coisas que têm acontecido resolvi escolher uma coisa leve.
A Zélia Gattai é, para quem não sabe, mulher do Jorge Amado, e já tinha lido um livro dela e tinha gostado também - não sendo escritora, é uma excelente contadora de histórias.
Não fui bem sucedida.
O livro foi escrito como um presente para o Jorge Amado, contanto alguns episódios de encontros com os pais do escritor - uma espécie de manta de retalhos de histórias sobre os sogros, escritos pela nora.
Assim acompanhamos a vida dos dois, de como se conheceram e casaram, e das peripécias com os pais dele (ambos belas personagens de romance!). Ainda assim, não me cativou, não senti aquela vontade de ler e de devorar o livro até ao fim.

Dei 3 estrelas, mas recomendo.

Desconfinar

O verbo do momento.
Nestas últimos dias tivemos várias "primeiras vezes" pós-quarentena, e que bem que sabe este desconfinamento
Houve primeiro mergulho, primeiros abraços, primeira entrada no café do fim da rua, primeira ida ao museu, cada qual com um sabor diferente e um valor daquelas coisas que só reconhecemos quando perdemos.

(já abriam era as escolas todas...)

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Dia de festa

Não posso deixar passar em branco este dia de festa que é o Dia dos Museus e que coincidiu hoje com a sua reabertura.
Para mim foi dia de alegria, de regresso, de algum alento. 
São a minha segunda casa, e vê-los fechados partia-me o coração. 

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Facto

O meu pescoço envelheceu de repente, nos últimos dois anos.
(As chamadas em vídeo não perdoam, nem disfarçam)

Coisas boas da quarentena

Porque como diz a Tella, o importante é ver o copo meio cheio:
  • o tempo com os nossos filhos (quase parece contraditório, mas não é) - penso no nosso dia a dia normal pré quarentena e vejo que estamos tantas e tantas horas separados, que efectivamente mal nos vemos. Agora, para o bem e para o mal, tempo juntos é o que não falta
  • com o ponto anterior vem um sem número de conversas que temos  e que normalmente não conseguimos ter - conversas em família, mas também com cada um deles em separado, que é tão importante
  • apesar de andarem sempre à porrada, ao fim de muitos dias os dois mais velhos lá conseguiram encontrar algumas atividades para fazer em conjunto: ela aprendeu a jogar Minecraft, jogam raquetes e basquete na varanda, e brincam ambos ao faz de conta com a mais nova
  • passeios nas redondezas - descobrimos que vivemos no meio do campo e não sabíamos! Sem poder ir à praia nem ao paredão começamos a dar caminhadas pelo bairro e fomos dar a sítios que nem sonhávamos - descampados a perder de vista, que parece que estamos na aldeia.
  • apanhamos flores e trazemos para casa, tenho neste momento três jarras com flores, o que não sendo dia de festa, é inédito cá em casa
  • para o mal e para o bem, fiquei a conhecer melhor as professoras do mais velho que está no 5º ano numa escola nova (espreitei as chamadas em vídeo, teve de ser). Percebi que tive muita sorte com a directora de turma - muito organizada, despachada e muito querida com eles - e pelas atitudes dele nas aulas em vídeo vou percebendo também quem são os profs: os queridos, os mal encarados, os porreiros, os que estão ainda mais à nora do que nós. (Tiro o chapéu a todos, senhores!). Tendo de fotografar e enviar os trabalhos, também estou mais em cima das matérias e do que falam na escola, coisa que me passava ao lado muitas vezes
  • o pai cá de casa não demora tempo no caminho para o escritório - não que isso se traduza em mais tempo connosco, mas pelo menos sabemos que está ali perto
  • almoçarmos todos juntos todos os dias
  • um copo de vinho que bebemos os dois ao fim do dia, quando eles estão na hora dos ecrãs (e que bem que nos sabe...)
  • estar a fazer atividades que normalmente só faço com os filhos dos outros (em oficinas de férias e assim), com os três - já fizemos aguarelas, pinturas guache e de dedos, com diversos materiais, plantámos feijões e caroços de abacate, plasticinas variadas, massinhas, até já chegam a fazer coisas por livre iniciativa, totalmente sozinhos
  • em relação ao meu trabalho, esta pandemia trouxe à luz do dia a situação precária em que trabalha a maioria dos que se dedicam à cultura, e tenho esperança que isso faça agitar as águas e mudar um bocadinho as coisas
Dito isto, por mim está bom, pode acabar!

terça-feira, 12 de maio de 2020

Aos 80 serei mais divertida

Aos 20 juro que era uma pessoa bem divertida, impulsiva, a fazer as coisas ao sabor do momento.
Com o tempo, esse grande professor, tenho vindo a ser cada vez mais organizada, e aprendi que a chave disto tudo senhores - isto tudo sendo a vida no geral e no particular, com casa, filhos, trabalho, ginástica, almoços e jantares e roupas e contas para pagar e tudo e tudo - a chave de tudo isto dizia eu, é a planificação.
Caminhamos passo a passo para que tudo corra sobre rodas (no confinamento ou sem ele) porque eu cá me revelei uma freak da organização e da planificação (não da arrumação, que não chego a tanto).
Tudo temporário, meus senhores.
Mal estas crias abandonem o ninho e eu voltarei a ir para onde me levar a maré.
Voltarei a ser divertida e a não andar de agenda em punho, relógio no pulso e horário na parede.
Aguardem.

(aos 80 também voltarei a fumar, se isso ainda existir nessa altura, espero que sim. Vou ser uma velha bem fixe!)

sábado, 9 de maio de 2020

Dicas de quem já desfez a casa dos pais

  • o minimalismo, meus amigos, é um bem a adoptar
  • deixem tudo escrito: presentes de casamento, de aniversários disto e daquilo, o que veio das avós, o que veio de que lado da família - ou pelo menos vão dizendo aos vossos filhos de onde vieram as coisas, para que saibam.
  • usem as vossas coisas (entra ali no minimalismo, mas não é bem) - se não usam não vale a pena manter.
  • porque não deixar já escrito o que vai para quem?

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Casa vazia, coração cheio

... mas com um buraco gigante no meio.
Entregamos a chave de casa do meu pai na semana passada, e desde então a sensação de vazio tem sido uma constante.
Era uma coisa que me ocupava a cabeça desde a sua morte, e ultimamente então preocupava-me imenso pensar em ter sítio onde por os móveis, o que fazer a tantas coisas que não conseguimos absorver nas nossas casas.
Achei que, tal como em quase tudo o resto, uma vez que estivesse feito iria dar uma sensação de liberdade e dever cumprido - aquela coisa de riscar um item da lista de afazeres ("to do list" é mais blogosfera mas pronto), ainda mais um item que se arrastava há vários meses (fim de semana atrás de fim de semana).
Enganei-me.
Foi-se a preocupação, mas caramba, ficou um buraco sem fundo que nem sei como preencher.
Mesmo na ausência dos pais, a casa dos pais é sempre um porto de abrigo, um lugar seguro e neutro, onde a família se reúne e encontra sem haver anfitriões. É sempre um lugar de regresso a casa, à família, à infância, à pessoa que nós fomos antes de sermos tudo o que somos agora.
Ficar sem ela foi mesmo ficar sem raiz.

Desfazer a casa dos pais é um processo complexo, do qual não saímos da mesma forma que entramos. Mal comparado, é como ter um filho: sabemos que nos vai transformar, mas não sabemos o quanto nem como.
No fundo, é como uma montanha russa.
As minhas irmãs e eu temos tendência para levar tudo a rir, para simplificar.
Visto de fora até parecia que estávamos na maior, e de certa forma até estávamos, mas caraças que dar de caras com diários, fotografias, cartas, bilhetinhos escritos por nós em cada bolso, mais as toalhas e loiças que nos lembramos de toda a vida, os quadros com tantas histórias para contar, os livros, senhores, só os livros levaram dias inteiros a dividir e organizar, e toda uma panóplia de objectos que nos dizem tanto, mas que não podemos nem conseguimos guardar.
É brutal.

A única coisa positiva no meio disto tudo é que somos três.
E como os meus pais estiveram juntos até ao fim, a casa era só uma (e que felizes que fomos ali, nos últimos 10 anos).

Valha-nos também o facto de estar feito.
Por isto não teremos de voltar a passar.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Acabou a emergência, venha a calamidade

E nós por cá agimos em conformidade.
O desconfinamento - e não regresso ao normal, porque normal é tudo o que isto não é - traduziu-se em encontros no parque com avós, tios e primos, respeitando a distância de segurança.
Até quando andaremos a dar toques de cotovelo e a fazer sorrisos atrás de máscaras?

Se aos adultos sabe bem falar frente a frente, às crianças então nem se fala... andam de bicicleta, brincam, jogam à bola, felizes de estar com alguém sem ser os irmãos ou através de um ecrã.

Domingo esteve calor e eu espero com toda a sinceridade que este estado não se mantenha até ao Verão. Vou ser uma pessoa muito amarga se me metem em casa em pleno verão.
Ou calor ou calamidade, as duas não pode ser!
Fomos dar uma volta pelo bairro e até se ouviam os sons das piscinas dos vizinhos - e eu sou sincera, senti uma pontada de inveja (não por mim que passo bem sem piscina, mas por eles, que nada os faria mais feliz naquele dia do que dar uma mergulhaça numa piscina qualquer).
Ontem já desceu a temperatura e a inveja desceu também.

Tenho continuado à procura da melhor forma de lidar com isto tudo.
Com a escola na televisão, nos computadores, com a mais nova sempre agarrada nas pernas, com os almoços e jantares que se sucedem a olhos vistos, com a roupa suja, estendida e por arrumar, com o facto de ter perdido o meu pai há 4 meses e estar há dois sem poder abraçar as minhas irmãs e sobrinhos como deve ser.
Tenho tanta coisa para ler e estudar e não faço nada. Nada do que é meu é prioritário agora, e isso chateia-me de grande. Isso e o facto de que cada vez que eu me sento a ler ou numa video chamada, cair o Carmo e a Trindade cá em casa, ele é lutas e bulhas, gritos, a sala virada do avesso e eu juro que não consigo já lidar com isso.
A juntar a isto, todo um filme de burocracias por resolver - finanças, segurança social e o caneco.
E já disse que o nosso frigorífico - cheio que nem um ovo, com o congelador bem atestado como convém em tempos de confinamento - avariou e não tem arranjo?
Pois é.
Estou farta disto tudo, mas acho que já o tinha dito noutro post qualquer.
Mantenho. 
Far-ta.
Emergência ou calamidade, podemos passar já à fase seguinte?

sábado, 2 de maio de 2020

Contra senso

Sem trabalho, sem distrações, sem poder ir a lado nenhum, e tenho lido menos que nunca.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Mais um post sobre a quarentena

Quarentena começa a ser pouco para aquilo que estamos a viver, já estamos mais perto da cinquentena e sabemos lá até quando é que isto dura, e o que se vai seguir...

Noto que estamos todos basicamente a ficar um pouco loucos, a alternar entre o alto e o baixo, entre o aproveitar o bom que há nisto tudo e o fartos que estamos todos desta porcaria.

Por cá continuo, desde o dia 1, a sentir falta dos meus momentos. Não me consigo ouvir, não consigo seguir uma linha de pensamento, ler um artigo, ler notícias, ou o que quer que seja sem ser interrompida. Mil vezes.
Mal comparado, sinto-me como me senti quando tinha dois bebés e só conseguia (mal!) ser mãe, mãe, mãe - onde andava eu, Mary, no meio das fraldas e babetes? Por aí perdida.
Agora igual. Há menos fraldas (mas ainda há), mas há escola nos portáteis e na televisão, TPC para supervisionar, e entre comidas e roupas e limpezas e o raio, ando eu meia perdida.

(para escrever estes 3 parágrafos tive de interromper nem sei quantas vezes, mandar separar outras tantas. Há uma tenda na sala à minha espera. Não consigo ter nem dois minutos para escrever)

Isto às tantas pode ser muito sufocante.
É isso que sinto.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Sobre o ensino doméstico

Sempre foi coisa que me fez a maior espécie.
Nem tanto pela minha incapacidade de me dedicar exclusivamente aos meus filhos, mas porque para mim a escola é, com todos os seus defeitos, muito mais do que as aulas.
A escola é amizade, companheirismo, é responsabilidade, é estar longe dos papás e dos irmãos, é permitir que as crianças cresçam de facto e sejam quem quiserem.
Tantas e tantas vezes acontece que os miúdos são uns em casa e outros na escola, e isso é tão importante.
E claro que há coisas más, péssimas mesmo - os miúdos são gozados, há enxertos de porrada pelos miúdos mais velhos, há casa de banho sem condições nenhumas, há comida de fraca qualidade (e estou a falar da escola dos meus mesmo) - mas tudo isso faz parte, tudo isso é experiência, tudo isso é escola.
Penso nas minhas memórias dos tempos da escola e quase nada acontece dentro da sala de aula, ou o que acontece tem pouco a ver com a matéria e com os professores.
Isto tudo para dizer que tenho a maior pena destes miúdos, deste confinamento, das aulas online, da tele-escola - com tudo de bom que está a correr, porque dentro do estilo não podia estar a correr melhor.
Mas caraças pá, escola sem colegas e sem recreio serve para quê mesmo?

quarta-feira, 22 de abril de 2020

O mundo ao contrário

Eu a dar explicações de matemática do 5o ano. 

40 dias de quarentena

Are we there yet?

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Quarentena must do

Também já temos a nossa despensa devidamente organizada e limpa, e muito arrumadinha.
Tínhamos feito isso há pouco tempo, achava eu, mas pelas contas das coisas fora de prazo há de ter sido ali em 2015 ou 2016.
A coisa mais fora de prazo de todas faz-nos regressar aos idos anos de 2011/2012 em que eu queria ficar em forma mas não estava bem a perceber como: um chá para emagrecer com prazo a acabar em 2013.
Foi uma operação que demorou poucas horas, e foi maioritariamente feita pelo Tê, mas que ainda assim pode entrar na minha lista de feitos na quarentena.

sábado, 18 de abril de 2020

Ao 37o dia de quarentena

Passei (por motivos de força maior*) quase 12 horas fora de casa.
Estou para lá de cansada...

(* fui fechar-me noutra casa a fazer arrumações) 

terça-feira, 14 de abril de 2020

First world problems

Os meus dramas de consumo nesta quarentena:
  • anda tudo doido a fazer pão em casa, e o stock de fermento de padeiro esgotou
  • o meu creme para acne em peles maduras (que é diferente do acne da adolescência, ficam a saber) só se compra nas farmácias. E agora, fico na fila de máscara e luvas para pedir um creme? Não me parece...
  • no meu dia a dia normal compro coisas específicas em supermercados específicos - vou a um ou outro consoante o que estou a precisar, e claro, há sempre aquela vez que passo no hipermercado grandão, que tem imensa escolha. Agora vamos a um supermercado de vez em quando, nem pensar em andar a passarinhar, e pronto, chego sempre a casa a faltar alguma coisa 
  • tenho feito uma alimentação específica nos últimos anos, e agora é o drama... a massa da marca sem glúten que eu gosto (italiana) já esgotou em quase todo o lado, e a farinha de espelta biológica também está difícil de encontrar
  • uma pessoa até vai ali à mercearia do bairro com todo o gosto - tem óptimos frescos (não todos, mas muitos sim) e são - isso sim - óptimas pessoas, sempre prontos a ajudar de sorriso na cara e a dizer piadas, mas caraças, às tantas é frustrante a quantidade de coisas que não há: iogurtes naturais (só de aroma), corn flakes simples, fio dentário e por aí fora...
Que grande seca.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Sobre a Páscoa

Já tive algumas Páscoas diferentes, inclusivamente Páscoas que me passaram completamente ao lado, mas uma Páscoa a 5 em casa foi - como para todos vós, calculo - a primeira vez.

Custou-me, confesso.
Depois de um Natal difícil e diferente, um ano novo que nem comento, ora bolas que acho que merecíamos uma Páscoa como deve ser. Se calhar não, não sei.
Foi talvez o dia que mais me custou não estar com a família alargada.

Há um ano passámos a Páscoa em casa do meu pai, e tirámos a fotografia que temos até hoje no nosso grupo de whatsapp.
Era inimaginável que um ano depois estaríamos assim - sem pai presente, sem casa comum onde nos reunirmos, cada um em seu concelho e com proibição à séria de nos encontrarmos.
Custou-me também porque este ano os planos eram de irmos para Norte, festejar a Páscoa mais tradicional este ano ainda mais porque a avó do Tê fez anos no domingo - os planos eram de festejar duplamente e à séria.
Quis o destino que os festejos ficassem adiados.

No entanto, fiz pela primeira vez folar que foi todo ao pequeno almoço. Demos um passeio a pé e fomos dizer adeus à janela dos avós (e trazer o almoço) e tios.
Comemos muito, e muito bem!
À tarde demos outra volta, e acabamos o dia com uma caça aos ovos na sala. Descobrimos que a mais nova, do alto dos seus 3 anos, é excelente a encontrar chocolate!
Foi bom, claro que foi.
Mas se for possível, não vamos repetir.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Livro 11/53

A Solidão dos Números Primos - Paolo Giordano - Compra Livros na ...


A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

Perturbador.
Os primeiros capítulos são de arrepiar, mas impossíveis de parar de ler, depois o ritmo abranda, as personagens crescem e a voracidade da leitura perde o vigor.
Gostei muito do início, e fui deixando de gostar tanto à medida que se aproximava o fim.
Muito bem escrito.
Dei 4 estrelas e recomendo.

(à procura de imagens para ilustrar percebo que já se fez um filme também)

Consideração sobre os meus filhos mais velhos

Façam o que façam, acabam sempre à porrada.
Sem-pre.

Eu não lhes faço nada. Juro.
E não me meto porque sei que não interessa e não vale a pena.
Também tento não me desgastar com isso, e no geral consigo - é que de outra forma nem sobrevivia, tinham de me internar na ala de psiquiatria, não havia outra hipótese.
Dito isto, ao fim do dia estou capaz de os rifar.
Não. Estou capaz de pagar para que mos levem.

F.....-se.

Mais cenas da quarentena

E ao nãoseiquantésimo dia de quarentena, voltei a usar maquilhagem.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Mais dias de quarentena

Como em tudo, na quarentena também vamos passando por diferentes fases - ainda para mais que já andamos nisto há quase um mês.
Eu adoro os meus ricos filhos, e toda a gente sabe disso, mas caramba às tantas já não os posso ouvir.
Preciso de silêncio, preciso que eles se calem e me deslarguem da mão, caraças.
Se podia ser pior, claro que podia, foge, se podia, mas todos temos aqui um ponto de ruptura e cá para mim a hora do silêncio já se podia estender para o dia do silêncio. Ou dias, vá.

Percebi outra coisa (parva) que faz (muito) parte do meu dia a dia e de que sinto a falta: andar de carro a ouvir música, a cantar e a organizar as ideias.
Resolvi muitas coisas da minha cabeça ao volante. Ir a conduzir estrada fora com as lágrimas a correr, é uma terapia.
Dizem que depois de perdermos alguém não há nada como um regresso às rotinas, à normalidade dos dias, para o luto se ir fazendo. Preencher o nosso vazio com as coisas que nos fazem felizes. Assim fica difícil...
Tenho milhares e milhares de razões para ser feliz dentro de casa - e sou, sou muito! - mas ele há dias em que uma pessoa só lhe apetece pegar no carro e sair daqui para fora.
Dei uma volta de carro aqui na zona ontem e o cenário é de filme de terror: filas e filas à porta dos supermercados, as pessoas na rua com medo, nervosas.
É tudo muito deprimente. Nem aqueles 5 minutos sozinha ao volante me souberam bem.

Fala-se agora da questão do "vai ficar tudo bem", se não podemos indignar-nos contra este optimismo, se não temos direito a achar que vai ficar tudo mal.
Podemos.
Mas não vai ficar tudo mal, malta.
Também não sei se vai ficar tudo bem.
Vai ficar (e acreditem em mim) como tiver de ficar, e depois nós (cada um de nós) vai sentir que está tudo bem ou não, conforme a nossa força interior.
E é com esta pérola da psicologia barata (mas verdadeira), que vos deixo hoje.
Amanhã será melhor.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Só uma palavrinha sobre a situação actual

Estou farta desta merda toda. To-da.

(pronto, já desabafei, podem ir à vossa vida)

domingo, 5 de abril de 2020

Dias de quarentena

Nunca pensei, nunca mesmo, que viéssemos a passar por isto em 2020.
Muito frequentemente, muito mesmo, durante as minhas visitas refiro epidemias anteriores - a de cólera que matou o D.Pedro V e alguns dos seus irmãos no séc. XIX, a de "gripe espanhola" que matou o Amadeo em 1918 - mas sinceramente nunca imaginei que fossemos passar por isto.

Fez ontem 3 meses que o meu pai partiu, e garanto-vos que parece que foi há 3 anos.
Penso naqueles dias no hospital em que ali estivemos junto dele até ao último suspiro, penso nos dias que se seguiram, nos velórios, missas e funeral, e nos abraços que recebemos - centenas, milhares! - que nos encheram a alma.
Que arrepio pensar nos que morrem agora, no quanto o mundo mudou - todos mudámos - desde então.

Já lá vão mais de 20 dias de confinamento, e aos poucos vamos percebendo que afinal, como em tudo, aguentamos mais do que imaginamos. Aguentamos tudo, deixem que vos diga, e isso é também deveras assustador.

Já lá vão mais de 20 dias, mas digamos que o tempo até passou bastante rápido. Muitos planos e coisas que tenho para fazer ainda permanecem iguais - o quarto das miúdas por destralhar, principalmente.
Considero-me uma pessoa bastante caótica, e descontraída, mas depois vejo que não. Sou obstinada com os horários, faz-me confusão que os miúdos saiam da rotina, e estou passada com esta história da mudança de horário porque ando a acordar mais tarde e isso - mesmo tendo  zero compromissos - faz-me espécie.
Faço a minha caminhada matinal, faço ginástica na minha app (que uso há meses), visto-me normalmente (e não de fato de treino!), só não uso maquilhagem (mas ainda assim nos primeiros dias ainda usei!). Obrigo os miúdos a vestir, pentear e tudo e tudo nem que seja para depois se sentarem no sofá, detesto vê-los de pijama depois do pequeno-almoço.
Estou farta de cozinhar, principalmente de fazer sopa, mas não consigo abdicar de a fazer. Sopa, salada, fruta, tudo dentro da normalidade
Acho que os anos a trabalhar em casa me deram as ferramentas para saber sobreviver a isto de forma relativamente tranquila, mas isso implica ser rigorosa nas regras - e sou um bocado obcecada com isso, confesso.

No meu dia a dia normal passo muitas horas sozinha.
Acontece muitas vezes ir trabalhar e não me cruzar com colegas (por diferenças de horários) e normalmente almoço sozinha, muitas vezes até em casa (mas sozinha). E sim, sinto falta desse silêncio, de estar sozinha sem dar atenção a ninguém.
Do lado oposto sinto, sentimos todos, falta dos primos, tios e avós, que fazem parte do nosso dia a dia, tanto à semana como ao fim de semana, além dos amigos, claro. Os miúdos estão com umas saudades enormes de estar com outros miúdos além deles próprios - mas eu até acho que lhes faz bem serem obrigados a entenderem-se.

Penso muito no que vai acontecer depois de tudo acabar.
Tudo isto vai revolucionar a nossa maneira de viver, e infelizmente nem tudo é cor de rosa nos tempos que se aproximam.
Eu estou sem trabalho até sei lá quando, uma quantidade de empresas não vão sobreviver, vamos todos penar durante uns anos por causa disto - e logo agora que começávamos timidamente a sair dos efeitos da crise de 2008.
Até lá, cada um faz a sua parte e fica em casa o melhor que pode.
Já não falta tudo!

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Livro 10/53

Os Despojos do Dia - Livro - WOOK



Os Despojos do Dia, de Kazuo Ishiguro

Mais um da biblioteca do meu pai, e deste lembro-me de ter falado com ele (num dia qualquer em que andei lá a ver o que trazia a seguir) e sei que gostou.
Eu também gostei.
Não sendo aquele livro que se devora em um dia, que estamos naquela impaciência para termos tempo de o ler porque queremos muito continuar, é um livro que nos transmite uma grande serenidade e, usando as palavras do autor, dignidade.
Não vi o filme, mas é inevitável não ter a imagem do Anthony Hopkins como Mr. Stevens, o clássico mordomo inglês que atravessa o século XX, inicia a carreira na I Guerra e acompanha de perto os acontecimentos que vão desembocar na II Guerra e depois disso até aos anos 50, o momento presente do livro.
Há momentos muito bem descritos, apesar da simplicidade, em que quase sentimos o cheiro de Darlington Hall, desde o chão encerado, às pratas polidas, às flores no jardim, tudo tão bem definido. Tão inglês e tão japonês ao mesmo tempo, como o autor.
Fiquei com vontade de ver o filme.
Dei 4 estrelas e recomendo.

segunda-feira, 30 de março de 2020

O inédito de sábado à tarde

1917 - Cinecartaz


Para que fique registado, sob o tema "coisas que só acontecem na quarentena", esta que vos escreve fez uma coisa que não fazia seguramente há mais de 10 anos:
Sábado à tarde, eram aí umas 17h30, abanquei no sofá e vi um filme.
Inteiro.
Sozinha
(porque o pai cá de casa já o tinha visto, parece que tem uma vida paralela quando todos nos vamos deitar.)

Claramente, tenho de fazer isto mais vezes.

Livro 9/53

As Velas Ardem Até ao Fim - Sándor Márai - Compra Livros ou ebook ...



As velas ardem até ao fim, de Sándor Márai

Chamou-me a atenção a biografia do autor, e também o facto de ter muito poucas críticas no Goodreads.
É uma obra fantástica, que me cativou logo desde o primeiro momento (sendo que o comecei a ler na fila do supermercado - sinais dos tempos).
Está escrito de forma simples e bela, e conta uma história muito simples também.
Há uma casa de família, há o protagonista e o seu melhor amigo que se reencontram ao fim de 41 anos. O autor vai desfiando as diferentes histórias, desde os pais do protagonista, a ama, a sua mulher, a família do melhor amigo também. 
Tem um pormenor que eu adorei que é o facto de ter as datas todas muito bem explicadas - datas de nascimento de cada personagem, datas dos diferentes acontecimentos, conseguimos criar uma linha do tempo muito bem definida, que é coisa que eu bem aprecio.
Só não dei 5 estrelas porque no final o livro perde um pouco o ritmo, e o fim desiludiu-me assim um bocadinho de nada.
Dei 4 estrelas, que são 4,5 e recomendo muito.

sexta-feira, 27 de março de 2020

A razão do optimismo no post anterior...

Não sei se notaram um tom bastante optimista no post anterior.
Sim senhora, até parecia que eu tinha esta quarentena controlada, tudo sobre rodas, alegria no ar.
Pois... esse optimismo tinha um segredo, que agora posso partilhar.
Todos os dias desde que a quarentena começou que eu fazia uma sagrada caminhada no paredão de Cascais, ali entre as 6h45 e as 7h20 da manhã mais coisa menos coisa. Ia de carro, caminhava sozinha sem mexer em nada e regressava ainda antes da casa acordar. Uma verdadeira terapia.
Nunca disse a ninguém que o fazia, nem partilhei nas redes sociais as fotografias lindas do nascer do sol, por puro egoísmo: para não dar ideias a ninguém!
E desde ontem o inevitável aconteceu, e o paredão ficou interdito.
Lamento muito, no entanto percebo perfeitamente. Não era de todo um paredão às moscas, havia várias pessoas que faziam o mesmo, e se muitas estavam sozinhas ou em casal (deduzo eu que vivam na mesma casa), havia ainda alguns amigos que caminhavam juntos como antigamente - e isso nos dias que correm, senhores, é criminoso...

Resta-me agora obedecer às autoridades e caminhar aqui no bairro.
E já gozo.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Dias de quarentena

Depois de passar os primeiros dois dias (sexta feira 13 e sábado 14) agarrada ao telemóvel a ver a evolução dos acontecimentos, atrás dos miúdos a ver se se vestiam e a tentar que não passassem eles mesmos os dias agarrados aos ecrãs, tive de respirar fundo três vezes e tentar fazer com que a coisa funcione.
2ª feira dia 16 começámos a valer.
Fizemos um plano (realista, adaptável e escrito a lápis de carvão) dos dias e tivemos uma conversa séria sobre como vão ser os próximos dias, semanas, talvez meses até.
Há miúdos a quem não se pode dizer nada, são impressionáveis, pois os meus temos de carregar bem fundo e até dramatizar um bocado, são uns optimistas (e eu agradeço!) e por isso não levam as coisas a sério.
Nos primeiros dias houve notícias vistas por todos, viram imagens de Itália e perceberam sem rodeios o que se está a passar. Agora já interiorizaram e nós só vemos as notícias depois deles se deitarem.
E assim os dias têm passado sem grandes dramas, para eles e para mim.
Estão incluídos nas tarefas cá de casa, e não podem refilar (o castigo é ficarem sem ecrãs): assim lá se organizam e tiram a máquina da loiça, e limpam os wc e as maçanetas da casa toda diariamente. Uma vez por semana fazemos limpeza geral, e vamos alternando as tarefas.
Estudam duas vezes por dia, de manhã e à tarde. Os profs de ambos ou são muito porreiros, ou relaxados, ou info-excluídos, mas eu agradeço. Mandam trabalhos tipo TPC, não pedem que mandemos de volta nem nada. Não houve até agora aulas online, nem reuniões no zoom como tenho ouvido falar - são apenas emails com sugestões e eles vão fazendo autonomamente.
Alguns pais - claro - estão com dificuldades porque estando a trabalhar fica difícil não ter como os entreter, mas penso que esta situação se deve ao facto dos miúdos não estarem a ver os pais como autoridade "escolar". Cá em casa eles também refilam, mas eu apenas lhes mostro o plano que fizemos juntos no primeiro dia, e se for preciso comparo com o horário da escola, em que ficavam tantas mais horas dentro da sala de aula.
Saímos os 4 duas vezes por dia também, vamos a um campo aqui ao pé, ou a uma relva que fica nas traseiras do prédio. Vamos levando diferentes "divertimentos" ora três bolas, ora bicicleta, carrinhos, trotinetas, corda de saltar. Já sabem perfeitamente que não mexem em nada, e até a mais nova já sobe as escadas  sem precisar de dar a mão.
Depois do almoço, durante a sesta da mais nova, é a hora do silêncio. Ninguém fala com ninguém. Cada um estuda para seu lado, e se houver dúvidas fica para depois. Eu aproveito para respirar fundo muitas vezes e arrisco dizer que a eles também lhes sabe bem não terem de se aturar durante um bocado.
Não estando eu a trabalhar, que não estou nem sei quando estarei, a quarentena revela-se mais fácil, e por agora tem sido uma oportunidade de, de facto, estarmos juntos como nunca estamos, e por isso eu não me posso mesmo queixar.
Dito isto, há mil coisas que ficam pendentes, tenho ainda coisas que vieram de casa do meu pai por arrumar, roupa a acumular, porque dedicar-me a eles não deixa de facto tempo para muito mais.
Vejo os milhares de propostas de cenas para fazer que invadem a internet - filmes e séries, livros em PDF, visitas virtuais aos museus, cursos de tudo e mais alguma coisa - e penso, quem é que está a usufruir disto tudo? Estamos todos em casa, mas parece que nunca temos tempo para nada na mesma!

sexta-feira, 20 de março de 2020

Livro 8/53

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No coração desta terra, de J. M. Coetzee

Antes de mais , avisar que foi uma péssima altura para ler este livro.
Acho que é daqueles que depende mesmo da disposição do leitor, não que seja uma leitura difícil, mas fácil também não é.
A história começa de uma determinada maneira, e depois dá a volta e ainda outra volta.
Primeiro achei que eram saltos no tempo, depois achei que era uma mistura entre fantasia e realidade da protagonista. Fiquei sem certezas.
É um livro bem escrito, profundo, poderá ser alegórico também e com múltiplas interpretações, é daqueles que deve ser muito interessante ler num Clube de Leitura - com certeza haverá quem adore e quem odeie.
É também uma escrita dura, crua, e muito sensorial, mas profundamente deprimente.
A protagonista é talvez a protagonista mais deprimida (e por isso deprimente) de toda a história da literatura. Sinceramente, às tantas já não a podia "ouvir"! Tudo nela (segundo a própria) é feio, ressequido, desenxabido e desinteressante. Cansativa (e louca, pronto, fica o spoiler).
Não foi de todo uma boa companhia nestes primeiros dias de quarentena.
(mas eu estou numa fase em que não consigo deixar livros a meio, se lhes pego, pego até ao fim, e se não estou a gostar tento despachar o assunto e acabar de uma vez).

Dei 3 estrelas, e apesar de tudo o que eu disse, recomendo.

Livro 7/53

A Arte Subtil de Saber Dizer que se F*da



A arte subtil de saber dizer que se f*da, de Mark Manson

Ofereci este livro ao pai cá de casa, pois achei que ele estaria a precisar de dominar esta arte. Ele ainda não o leu, entretanto peguei-lhe eu.
Não sendo nada de novo, está bem escrito, e é fácil de ler.
Vou lendo algumas coisas de parentalidade positiva e mindfullness e no fundo é a mesma coisa - a importância de estabelecer prioridades, de valorizar o que é de facto importante, de saber dizer não e ser assertivo quando é preciso, entre outras coisas - mas escrita de forma mais descontraída. À gajo, vá (estava a evitar dizer isto).
A diferença é que os exemplos em vez de serem com situações com as quais eu me identifico - enquanto mulher e mãe - são situações de homem solteiro que passou a vida em relacionamentos pouco sérios e a saltitar entre mulheres sem assumir compromissos.
Portanto, em vez de mindfullness é um bocadinho mindf*da-se.

Dei 3 estrelas e recomendo.

terça-feira, 17 de março de 2020

Dicas para o vosso teletrabalho

Ora então, só uma ou outra coisa de quem, como sabem, passou 6 anos a trabalhar fechada em casa:
  • agora é tudo muito giro, mas se for por muito tempo, deixa de ter piada (desculpem o spoiler)
  • se possível tenham um sítio fixo para o trabalho - idealmente um escritório, se não uma secretária, ou um canto da mesa da sala que seja a zona de trabalho. Não trabalhem no sofá. Zona de trabalho e zona de lazer devem ser diferentes.
  • não sendo preciso fato e gravata, não abandalhem no guarda roupa. Não vale passar o dia de fato de treino. É feio e é deprimente.
  • trabalho é trabalho, casa é casa. Estabeleçam horários específicos para ambos. Não se metam a tirar a máquina da louça a meio do dia, ou a estender a roupa entre dois e-mails - ficam com tudo mal feito, ou feito à metade.
  • boa sorte a não invadir o frigorífico enquanto preparam o próximo projecto. O que vale é que estamos em contenção, por isso à partida não dá para ir comprar porcarias a torto e a direito...
  • é chato, principalmente com crianças a cargo, mas pensem que assim como assim não perdem tempo nos transportes e têm duas coisas que por enquanto não temos cá em casa: um salário ao fim do mês (eu não tenho) e segurança de não andarem a ir para o escritório (como o pai cá de casa que continua a ir...)
Boa sorte a todos!

Sobre o teletrabalho

Sou só eu a achar que a palavra teletrabalho parece vinda dos aos 80?

Trabalhei 6 anos a partir de casa, 6 anos.
Em nenhum momento - nenhum! - me referi a ele como "teletrabalho"!

domingo, 15 de março de 2020

A pandemia e o espelho

Tenho a sensação que esta pandemia de Covid 19 em que nos encontramos, e consequente quarentena (por agora voluntária), nos coloca um espelho à frente da cara (da nossa e do mundo).

Todas as decisões que tomámos até aqui são-nos apresentadas em toda a sua plenitude.
Fechados em casa deparamo-nos, sem subterfúgios, com a pessoa que escolhemos, com os filhos que temos e a educação que lhes demos, com a casa que comprámos, com o divórcio, com o trabalho que nos vai permitir ou não sobreviver nos próximos meses, com a despensa minimalista ou cheia até ao tecto, com o caos ou a ordem do sítio onde vives..
Parece que o universo nos diz: "esta é a tua vida, foi isto que escolheste. Lida com ela!"

Por outro lado, olho para o efeito que este vírus está a ter no mundo, e penso também no peso das nossas escolhas do passado. Quem escolhemos para nos governar, as políticas, as fronteiras abertas ou não, a UE, o que consumimos, como funciona a nossa sociedade.


Vamos ver o que acontece quando abrimos os olhos e nos vemos ao espelho.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Tempos estranhos, estes

Em nenhum momento imaginámos o que nos estava reservado para este ano.
Por aqui todos com saúde no nosso círculo alargado (que saibamos) e já todos isolados, cada um na sua casa.
Cá em casa só o pai ainda tem ordem de soltura, mas espero que seja mesmo por pouco tempo.

Dizem que é nas alturas de crise que os nossos valores vêm ao de cima, ficamos (já estamos) com as emoções à flor da pele e tudo aquilo que somos aparece sem disfarces, à transparência.

A mim parece-me que estamos todos um bocadinho orfãos, sentimos falta de alguém que nos diga o que fazer para ficar tudo bem.
Sinto que estamos todos a embarcar sem saber para onde vamos. Não sabemos mesmo.
Mas para onde formos, vamos juntos.

terça-feira, 10 de março de 2020

2 meses ou 5 anos depois

Cumprimos a promessa feita de depositar as cinzas de ambos no mar, pertinho da bóia de espera (ao largo de Cascais).
Mais um ciclo que se fecha, mais um dia tão difícil como bonito. E que bonito que foi!

51 anos antes, não muito longe dali, estava o namoro deles prestes a começar.
Ficamos agora cá nós como resultado de uma fantástica história de amor.

Até sempre, queridos pais. Obrigada por tudo!

segunda-feira, 9 de março de 2020

E passou mais um 29 de Fevereiro

E de 4 em 4 vamos avançando na vida e no blog.
Há 4 anos escrevi este post, e há 8 escrevi este, e há 12 (credo!) escrevi este.

Da Mary de 2008 na Holanda passamos à Mary de 2012 com dois filhos e a trabalhar a partir de casa, e depois à Mary de 2016 já a trabalhar naquilo que gosta, mas triste por ter perdido a mãe.

A Mary de 2016 tinha razão, a Mary de 2020 não tem (quase) nada do que se queixar.
Em 4 anos consolidei o trabalho, tive muitas experiências boas e adicionei alguns sítios novos aos que já tinha. Tive mais uma filha, mas acabei de perder também o meu pai.

Vamos ver que mudanças esperam a Mary de 2024!
(quase arrisco numa só certeza: este blog continuará a existir!)


Efeitos colaterais da epidemia do momento

Esta que vos escreve está praticamente sem trabalho.
As escolas cancelaram as visitas aos museus e monumentos, os turistas estão a deixar-se ficar nos seus países.
E nós, trabalhadores a recibo verde, vamos ter de ter imaginação para conseguir algum rendimento.

Aguardo ainda com alguma serenidade que a epidemia passe rápido, mas sei que em breve terei de arregaçar as mangas e meter mãos ao trabalho noutra coisa qualquer.

Livro 6/53

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O Ladrão de Arte, de Noah Charney

Trouxe este livro da biblioteca, por impulso, por estar em destaque.
Pouco depois de o ter começado estivemos a desfazer as (muitas) estantes de livros do meu pai, e claro que este andava por lá. Devolvi o da biblioteca e continuei a leitura no exemplar do meu pai (e aqui fica a nota do primeiro livro que li "emprestado" por ele sem saber qual a sua opinião...).
O meu pai sempre achou um disparate irmos à biblioteca requisitar livros quando ele tinha tantos à nossa disposição, e cá está a prova...

Três quadros são roubados em três cidades diferentes.
Temos policial e temos algumas lições de História da Arte, e por isso tinha tudo para correr bem, mas não cumpriu.
Muitas e demasiadas personagens (às tantas já me baralhei com quem é quem), passagens irrelevantes, e um final que se prevê (tirando alguns pormenores, vá) mas que não satisfaz minimamente o leitor.
Salvam-se algumas lições de História da Arte que o especialista na matéria dá aos seus alunos, e nós somos convidados a ouvir.
Dei 3 estrelas e não recomendo, a menos que gostem muito de História da Arte.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Livro 5/53

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Tudo o que ficou por dizer, de Celeste Ng

Trazido da biblioteca - os livros da biblioteca têm aquele prazo de validade que é a data da entrega, por isso são mais motivantes para mim, e acabam por passar à frente dos outros (que são os emprestados) - depois de confirmar as classificações no Goodreads.
É um bom livro, toca em muitos pontos importantes, por exemplo as relações dentro de uma família - a influência que o pai ou a mãe têm sobre os filhos, até que ponto as acções dos pais afectam a vida dos filhos, e como uma mesma acção pode ser vista de forma diferente pelos membros da família.
O papel da mulher, dos emigrantes, dos homossexuais, as lutas pelas igualdades de género e raça surgem no meio de um mistério que envolve a morte de uma rapariga - a filha do meio de uma família.
É tudo muito interessante, mas o fim (a causa da morte, vá) acaba por desiludir. Estava à espera de mais.

Dei 4 estrelas e recomendo.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Livro 4/53

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A Viagem do Elefante, de José Saramago

Tive de ir pesquisar nos arquivos do blog as outras referências a este livro.
Pois que o comprei  e comecei a ler em 2008, depois perdi-o (em casa), reencontrei-o em 2010, retomei a leitura e voltei a perdê-lo (também em casa, mas já na actual). O raio do elefante não parava quieto!
No ano passado, 11 anos e 3 filhos depois de o comprar, japonesei a casa (=destralhei segundo o método konmarie) e encontrei-o definitivamente, nunca mais o voltando a perder.
Ficou na estante até agora, que finalmente o li de uma ponta à outra.

Não sendo daqueles livros em que estamos em pulgas para ler - há passagens que não acrescentam muito - está tão bem escrito, caramba! É Saramago ao seu alto nível, talvez não com a energia narrativa de outras obras, mas com aquelas passagens que só apetece sublinhar. Tão bem escrito, senhores.

Dei 4 estrelas e recomendo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Mais de 1 mês (quase 2)

Já fez mais de 1 mês que partiu o meu pai.
Um só mês, quase dois, que pareceu infinito.
De repente todos aqueles dias e noites passados no hospital parece que foram noutra vida.
E foram.

Mas no meio de toda a tristeza foi bom ter tido tanta gente ao nosso lado, e perceber a importância que ele teve para tanta gente, muita eu nem sequer conhecia.
Foi um homem que foi bom a tudo: foi bom filho, irmão, marido, pai, amigo, colega, chefe.

Foi ao longo de toda a minha infância a medida para todos os homens. Tudo aquilo que o meu pai era e fazia, para mim era o que todos os homens eram e faziam. Os homens nunca tinham frio porque o meu pai não tinha frio. Os homens nunca dormem até tarde, porque o meu pai sempre madrugou. Os homens nunca ficam doentes, os homens são fortes, não têm papas na língua, dizem tudo o que pensam.
De mão dada com o meu pai eu era capaz de tudo, não havia onda maior do que a força dele!
Depois cheguei à adolescência e percebi que não era bem assim. E comecei a ver que o meu pai era tudo aquilo que um homem não devia ser: era conservador, não gostava de festas, não me deixava fazer nem um terço do que eu queria. Um pai infernal, portanto.
Não me deixou ir ao concerto dos Guns and Roses em 1992, nem aos Nirvana no Dramático de Cascais em 1994 e eu na altura não lhe perdoei!
Chocámos que nem gente grande, até porque éramos completamente iguais.
Eu sei que fui ao longo da vida desafiando tantas das suas ideias fixas, e uma a uma foram caindo por terra. Nunca se opôs a que eu fosse viver sozinha. Nunca se opôs à nossa ida para a Holanda. Nunca me disse nada em relação ao facto de não termos casado.
Viveu sempre de acordo com aquilo em que acreditou, e sempre o assumiu com toda a frontalidade. Era, para minha vergonha, espanto e admiração, para lá de politicamente incorrecto!
Dizia e fazia o que lhe dava na gana, e se houve alturas em que me quis enfiar num buraco com vergonha, hoje admiro-o tanto por isso.
Foi um cuidador incansável quando a minha mãe adoeceu. Esteve lá para ela sempre, e também nisso foi a medida de todos os cuidadores. Admirei tanto a reação que teve à sua morte, a forma como levou a sua vida por diante com a sua independência que tanto o caracteriza.
Com rotina e desgaste e tantos anos de convivência, os meus pais tiveram uma história de amor que quase supera as de ficção.

E é isso que nos fica - o Amor deles um pelo outro, e ainda mais o seu amor por nós.
Já fez um mês, quase dois, e parece que foi noutra vida, mas também parece que nunca aconteceu.
Sinto muito a falta daquela mão que era capaz de me proteger de tudo, mas sei que como ele, também nós vamos ficar bem.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Livro 3/53

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A Primeira Aldeia Global, de Martin Page
Começado em Novembro, mas só agora o acabei.
Interrompi durante uns meses - numa de mais uma vez ver se sou pessoa de ler dois livros ao mesmo tempo. Confirmo: não sou.
É como uma História concisa de Portugal, ressaltando aquilo em que os portugueses contribuíram para a História do Mundo - e não sendo nada pouco, há coisas que nem fazemos ideia.
Detectei algumas imprecisões, mas de um modo geral é um estrangeiro a contar a nossa História, de forma tão elogiosa que até estranhamos, às vezes.
Faz bem ao ego colectivo, todos deveríamos ler este livro!
Dei 4 estrelas e recomendo.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Livro 2/53

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Vai e Põe uma Sentinela, de Harper Lee
A história clássica de quando gostamos muito de um livro de um determinado autor, mas depois lemos outro e é um pouco uma desilusão...
As personagens são as mesmas do Matar uma Cotovia, mas alguns anos mais tarde. Ficamos a saber como cresceu a Scout, e o que aconteceu ao resto da família.
E há um momento de viragem na relação pai/filha, que ganha outro significado quando lido por uma filha que acabou de perder o pai (eu!).
Sendo um livro giro, bem escrito e bom de ler, não é nada do outro mundo.
Dei 4 estrelas e recomendo.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Livro 1/53 - desafio de leitura 2020

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Campo de Sangue, de Dulce Maria Cardoso


Assim começamos mais um desafio de leitura.
Resolvi elevar a fasquia deste ano para 53 livros, que dá um livro por semana. A fasquia do ano passado foi ultrapassada (duas vezes aliás, comecei nos 19 e depois alterei para 40 e ultrapassei ambas), e o objectivo deste ano foi eleva-la de modo a torna-la mesmo um desafio e manter a motivação. Um livro por semana durante todo o ano, não sendo impossível, vai ser mesmo desafiador.

Comecei o ano com chave de ouro.
Dulce Maria Cardoso foi uma descoberta positiva de 2019, e este é o seu primeiro romance.
É tudo aquilo que me atraiu nos outros livros que li dela, mas ainda em cru - e para mim, ainda melhor.
4 mulheres e 1 homem, todas elas se relacionam com ele de alguma forma. e vamos desvendando o novelo de cada personagem aos poucos. Descrições infalíveis, alguma fantasia, pelo meio até há um crime para resolver, e tudo naquela maneira de escrever que é tão dela. Não consegui parar de ler, gostei bem mais do que do Eliete.

Ofereci este livro ao meu pai nos seus anos em Agosto, porque não havia o Retorno. Ele tinha-o começado e estava na sua mesa de cabeceira desde então, e eu com umas ganas de o começar a ler, mas sempre à espera que ele o acabasse. Quando foi internado resolvi, não sem alguma cerimónia, ir lá busca-lo e começar a ler (ainda mantive o marcador dele no sítio mas depois acabei por tirar).
No meio daqueles dias na sua cabeceira, peguei nele em alguns momentos, quando estava sozinha e ele a dormir. Num dia em que o meu pai até esteve bastante confuso e delirante, apareci-lhe com o livro na mão e ele saiu-se com esta: "não gostei desse livro, interrompi!" - aproveitei para comentar que eu estava a gostar, mas que percebia que era um livro confuso, com muitas personagens e no início até temos dificuldade em perceber de quem é que a autora está a falar. Foi a nossa última conversa sobre livros - ainda bem que tivemos tantas outras (tantas mesmo!) ao longo da sua vida, e muitas delas nestes últimos anos.

Dei 5 estrelas e recomendo muito.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

5 anos ontem

E agora percebo que houve tanto deste luto que ficou por fazer.
Há 5 anos não houve tempo para sentar e chorar e deixar a dor assentar. 
Sinto que agora são dois lutos em vez de só um. 
A ver se consigo, um dia, digerir isto tudo. 

(tantas saudades, tantas!) 

Aos 41, como aos 18...

... Saio da consulta de dermatologia com um guia de tratamento para o acne.

(percebem porque é que o nome do blog continua actual?) 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Livro 42/40 (ainda de 2019)

O Chalet Das Cotovias, de Carlos Ademar

Estava em casa do meu pai fora do sítio (alguém lhe teria pegado, talvez) e por isso chamou-me a atenção. Comecei a lê-lo num dos serões que passamos os dois, sendo que ele avisou logo que o livro não era nada de especial.
Confirmo o nada de especial, mas está bem escrito. Um policial passado em Portugal nos anos 30, com alguns pormenores históricos interessantes - a polícia política, o ambiente artístico, o papel da mulher, as grandes famílias.
Entretém. 
Dei 3 estrelas. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Sem raiz

Sem mãe e sem pai, sem casa de infância, sinto-me como se me tivessem arrancado da terra.

(ando meio perdida) 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Reading chalenge

Só para avisar que apesar de não haver posts, em 2020 já cá cantam dois livros lidos.

3 anos da melhor do mundo

Melhor filha, melhor criança, melhor ideia de sempre ter esta miúda na nossa vida.
É uma benção.
Aos 3 anos está cómica e engraçada, faz piadas, fala pelos cotovelos, conta tudo e participa em tudo, não lhe escapa nada.
Toda ela é bem resolvida, e com a cabeça toda em ordem.
Sabe per-fei-ta-mente o que tem de fazer para atingir os seus fins, seja dar beijos melosos e festinhas, seja recursar-se a comer a sopa.
É meiga que só ela, mas um meigo espontâneo que não pede nada em troca.
Adora brincar ao faz-de-conta e imita episódios do Ruca e outros que vê na tv.
Adora pintar e desenhar.
Adora brincar com os bebés, às comidinhas e com a casinha de bonecas, jogar à bola e andar de trotineta.
É uma miúda fixe, não dá trabalho nenhum.
Só chateia quando não quer comer sopa (e aí há muito pouco que consigamos fazer), e na hora de deitar (há 3 anos que é assim) porque de resto é um doce.
Que sorte que temos de a ter na nossa vida.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

2019 Lado A em revista

Enquanto me falta a coragem para escrever outro post mais triste, aqui ficam as coisas boas de 2019, que as houve também.

A primeira coisa positiva que ressalto de 2019 foi a aplicação prática do método Konmarie cá em casa. Ao desfazer o "escritório" para quarto do mais velho, e consequente inexistência de sítio neutro e longe da vista onde deixar tralha, vimo-nos obrigados a japonesar a casa toda.
Foi uma razia, mas em boa hora a fizemos.
Saíram desta casa umas boas toneladas de tralhas, e eu nem sei bem o quê.
Mas foi um processo amadurecido, e profundamente libertador.
Ter uma casa (mais) minimalista teve um efeito transformador em muitas áreas da minha vida. Dá uma sensação de controlo e auto-controlo muito satisfatória. Tirando um ou outro pormenor, esta casa foi passada a pente fino, e só ficaram as coisas de que gostamos mesmo, mesmo.
Fiquei feliz com o meu armário com apenas 25 peças de roupa - que uso até à exaustão e depois substituo.
Fiquei feliz com o louceiro da sala com as coisas que usamos nos dias de festas, com os brinquedos escolhidos a dedo (e com os quais eles brincam muito mais), com as estantes vazias prontas a receber livros que queremos mesmo ler.
Pelo caminho arranjamos o corredor cá de casa, que era uma coisa que eu detestava. Não podemos estar rodeados que coisas feias, a nossa casa deve ser o nosso santuário onde nos sentimos mesmo bem. E que bom que é olhar em volta e gostar verdadeiramente do que vemos.
Muito fixe.

Em 2019 mantive a minha rotina de exercício, e contam-se pelos dedos (mãos e pés, vá) os dias em que me baldei à ginástica só porque sim.
Andava há anos a dizer "um dia volto a usar bikini", e em 2019 fartei-me do "um dia" e resolvi voltar a usar bikini. Foi também um aspecto que, não tendo grande importância, me deu aquele sabor de vitória. Aos 41 gostar de me ver de bikini deu-me um gozo bestial.
Ainda estou muito longe do meu ideal, mas achei que não valia a pena esperar.
O caminho continua em 2020.

Senti também esta confirmação de "alguma" serenidade aos 41, uma aceitação da minha pessoa, com as coisas boas e as coisas a melhorar. Já me libertei de uma data de coisas - jantares de colegas só porque sim, grupos de whatsapp disto e daquilo, convívios variados com pais de amigos dos filhos por obrigação. Disse que não muitas vezes, e não senti necessidade de me explicar. Sem culpa! Tenho 41, caramba.

Cá em casa o mais velho acabou o 1º ciclo e entrou para uma escola nova,de 2º e 3º ciclos, com tudo o que isso implica. Comecei muito bem em setembro, muito em cima dele que é um cabeça no ar e deixa tudo em todo o lado. Depois o meu pai adoeceu e eu deixei mesmo de ter oportunidade para andar a ver mochilas e assinar recados. Tirando uma autorização para o corta-mato que me escapou (e o filme que foi para o deixarem participar! Mas lá consegui!), o rapaz sobreviveu sem mim a andar atrás dele, e teve boas notas a tudo. Já perdeu casacos e o cartão da escola, mas recuperou tudo. Já nos esquecemos de marcar almoços e muitas vezes disse mal da minha vida por ainda não lhe ter dado um telemóvel porque para combinar algumas coisas até dava jeito. De resto, tudo OK.
A do meio não mudou de escola, mas eu também deixei de ter tempo para a associação de pais e para me envolver mais nos problemas da escola. Mas ela é uma excelente aluna e é muito feliz. É o meu braço direito cá em casa, e é quem mais me ajuda a tratar da mais nova. É uma autentica 2ª mãe, minha rica filha.
A mais nova cresceu que é uma coisa parva, diz piadas e faz associações. Deixou as fraldas no verão, num processo muito tranquilo. Entrou para a escola de forma tranquila também. Passou pelos terrible two que mal demos por eles, e agora pertinho dos 3 faz umas ameaças de birras que comparando com o que estamos habituados só nos dá vontade de rir. É aquele tipo de birra que basta distrair, basta abraçar e já passou. É aquela criança com quem todas as técnicas de parentalidade positiva funcionam à primeira, é uma maravilha (e que fácil que é ser mãe de uma criança assim).

Em 2019 passei muito, muito tempo no hospital de Cascais, mas verdade seja dita não tenho nada a apontar. Profissionalismo, excelentes instalações e principalmente muita simpatia. Passo naqueles corredores e vejo muita gente a refilar e a mandar vir (eu própria já lá deixei uma reclamação escrita em tempos) mas não tenho nada de nada a apontar este ano. Sempre que lá fui foi pelo meu pai (tirando uma consulta de rotina minha), o que por si só também é um ponto positivo.

Em 2019 resolvemos comprar uma tenda XL e passar férias a acampar, deixando assim algum orçamento para outro tipo de viagens, a acontecer em 2020.
Não foi um verão muito apetecível, esteve frio e chuva, mas por acaso tirámos férias na melhor semana do verão - a primeira de setembro - e estivemos num sítio fantástico, os 5, numa praia fabulosa, onde tomámos os melhores banhos.
Viajamos de avião os 5 (aliás éramos 11!) e correu tudo muito bem. Passámos 3 dias em Bordeaux que vão ficar para sempre na nossa memória.

Em relação ao trabalho estabilizei o que já tinha, aumentando o número de temas de visita, mas não acrescentei nenhum sítio novo. Foi um ano de pouca dedicação ao trabalho, mas onde este não faltou, por isso não me queixo. Decidi não trabalhar durante as férias dos miúdos, mas percebi que o orçamento se ressente bastante. Tenho de arranjar aqui um equilíbrio entre família e trabalho que não comprometa (tanto) a conta bancária.

Em 2019 li mais livros do que em qualquer outro ano, coisa que me deixa muito orgulhosa (já fiz um post sobre isso), fui uma vez ao teatro, uma vez ao cinema e a um concerto. Não sendo um número impressionante, é melhor do que alguns anos anteriores. A ver se em 2020 aumento estes números.

Foi um ano para lá de difícil, que acho que só daqui a muito tempo vou conseguir digerir. Aliás, percebi que o ano de 2014 ainda não foi totalmente processado, e muitos fantasmas dessa altura voltaram em grande força. Nada disto pelas razões deste post, mas pelo lado B de 2019.
Foi mesmo mesmo complicado, duro, difícil, mas também foi um ano em que vi a minha família mais unida que nunca, e percebi de facto a importância deste colo. Ficar sem mãe e sem pai é assim um salto no vazio. Sinto-me a ser lançada num trapézio, mas sei que tenho uma rede de segurança lá em baixo - é assustador ficar sem chão, mas ainda assim sei que não me deixam cair.

2020 traz muitos desafios, oh se traz.
Mas venha ele!

Bom ano a todos, queridos leitores!

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Bonança

Depois das (muitas) tempestades, parece que veio a bonança.
A luta acabou, de facto. 
Mas depois da paz sabemos que vem o vazio (porque as saudades, caramba, já cá estavam). 
Em breve um post sobre o meu pai, e sobre estes últimos meses. 
Agora vou só digerir um bocadinho isto tudo. 

sábado, 4 de janeiro de 2020

A vida em suspenso

A vida pára quando se está na cabeceira de uma cama de hospital.
Até custa a acreditar que o mundo continue a girar lá fora. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

2019 lado B

Foi um ano intenso e transformador, mas vamos ser sinceros, não foi um ano bom. Foi mau mesmo.
(o post sobre as coisas boas virá depois)

Basicamente foi um ano dedicado à saúde do meu pai. Foi o ano em que mais tempo passamos no hospital, em consultas, visitas ao internamento, pensos. Se juntasse todo o tempo em que eu estive com ele no hospital acho que perfaz uma quantidade de dias, e ele veio muitas e muitas vezes sem mim. Nos primeiros meses a preocupação era uma, grave, mas que até acabou por se resolver. Dois dias depois de estar resolvido entra pelas urgências, e a partir daqui foi um precipitar de situações, operações umas atrás das outras, infecções e coisas que tais provocadas por um cancro, num quadro que só por si já era muito complicado. 
Depois das cirurgias ainda pensamos que a coisa estaria controlada mas em Outubro soubemos que não.
Foi o trimestre mais intenso da nossa vida, em que o nosso super homem e super pai foi perdendo a sua independência diante dos nossos olhos, numa espiral de degradação sem haver melhoras. Foi preciso encontrar alguém que o pudesse acompanhar 24h por dia (e a odisseia que isto foi!), e combater todos os dias o pessimismo e os pensamentos que assolam aqueles que já passaram por isto há tão pouco tempo. 
É injusto para quem sofre e é duro como tudo para quem assiste. A sensação de impotência é uma coisa lixada. 
Foi internado há mais de dez dias, já aqui passou o Natal e aqui entrou em 2020.
Escrevo este post na cabeceira da sua cama, onde dorme profundamente. Parece estar tranquilo. 
A luta está quase, quase a acabar. 

domingo, 29 de dezembro de 2019

2019 em livros

Foi um dos aspectos marcantes deste 2019, e aqui ficam algumas curiosidades sobre o meu percurso literário (fonte: Goodreads)

Li um total de 41 livros (isto ainda está em actualização).
Foram 10996 páginas.
Livro mais pequeno: Os Belos Dias de Aranjuez (62 páginas)
Livro maior: Desaparecimento de Stephanie Mailer (661)
Livro mais popular: Por favor não matem a cotovia (lido por quase 4 milhões e meio de gente! E quem não leu este livro neste momento está a passar vergonha eh eh eh)
Livro menos popular: A obra-prima desaparecido (lido só por mais 3 pessoas além de mim! Grupo super exclusivo)

Livro preferido: Meio Sol Amarelo (tive de pensar um bocado, mas foi sem dúvida o que mais me marcou e ao qual regresso muitas vezes). Também regresso, por outras razões, ao 1808, A Mancha Humana, Que importa a fúria do mar e Niassa.
Livro menos preferido: Por quem os sinos dobram (gostei pouco do Adeus às armas, mas este foi preciso muita muita persistência para conseguir acabar), outras desilusões foram A Cidade sem Tempo, Eva e Jesus Cristo bebia cerveja.
Autores que descobri e gostei: Dulce Maria Cardoso, Philip Roth e Chimamanda Ngozi Adichie.
Autores que descobri e não gostei: Hemingway e Afonso Cruz

Abandonei apenas um livro, mas por ser demasiado técnico e não ser essencial neste momento para o meu trabalho: Nuno Alvares Pereira - Guerreiro, Senhor Feudal, Santo (de João Gouveia Monteiro).

Livro que irá transitar para 2020: A Primeira Aldeia Global (Martin Page)
(isto acreditando que o outro livro que estou a ler ainda vou acabar a tempo em 2019).

Foi o ano em que mais li, foram muitos e bons momentos passados nesta boa companhia, e é sem dúvida uma das melhores coisas deste 2019.
Todos me trouxeram qualquer coisa.
2020 será ainda melhor.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Natal passado

Foi duro, foi estranho, foi difícil e diferente. 

Mas também fomos à aldeia, estivemos em família, jogamos as cartas, comemos até não poder mais, estivemos juntos, os miúdos fizeram um presépio vivo e cantaram canções de Natal (e pela primeira vez receberam presentes sem exageros, e que bom que foi!).

Já passou, e não minto que isso me dá um certo alívio. 
Pode vir o fim do ano agora. 

domingo, 22 de dezembro de 2019

Rudeness is a blessing @rudelife.co

Não sou de recomendar marcas, nem de fazer compras online, mas mandei vir uns presentes de Natal desta empresa e só posso recomendar.

Sim, o meu sobrinho faz parte da equipa mas notem que só depois de ter encomendado, feito uma crítica no site e ter recebido uma oferta como agradecimento (sendo que eu não me identifiquei como tia, pelo que fui tratada como um cliente normal), e ter recebido as coisas empacotadas com imenso detalhe, é que estou a falar nisto.
São jovens, são do Alentejo profundo, e fazem as coisas bem feitas.
É à confiança.


Rudelife Company @rudelife.co

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

E porque é que estamos a viver uma das épocas mais difíceis da nossa vida?

Porque ainda nem fez 5 anos que morreu a minha mãe, depois de dois anos intensos de luta contra o cancro, e vemos agora o meu pai a ter de passar pelo mesmo.
E eu garanto que não há palavras para descrever isto. É que não há. 
Não somos as únicas (tenho uma amiga que passou pelo mesmo), e no meio de tanta coisa que pode correr mal as doenças dos pais são ao menos o percurso natural da vida.
Mas caramba, é duro. 
Dá a sensação de que há 5 anos nos arrancaram a pele, e agora arrancam outra vez. No entretanto descobrimos que afinal havia sítios onde a pele ainda não tinha crescido de volta.
É ferida aberta sobre carne viva.
Uma e outra vez.

(um dia vou ter de processar isto tudo) 

Aquela altura do ano

... Em que ao chegar a casa de noite nos parece ver uma ambulância na nossa rua, mas afinal eram só as luzes de Natal do vizinho. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Bryan Adams, ontem e hoje

No meio da confusão em que anda a vida por estes lados, na semana passada fui ver (outra vez) o Bryan Adams ao Altice arena.
Compramos os bilhetes há meses, e vimos logo que a altura ia ser complicada: sexta feira em Dezembro, frio, chuva e tudo com trabalho até aos olhos. 
Estava tudo um bocadinho do contra, é verdade.
A semana foi complicada, a moral estava mesmo muito em baixo e a vontade era nula. 24 horas antes e ainda ponderava se ia ou não.
Mas fui, e não me arrependi. Às vezes é mesmo preciso fazer o esforço e sair de casa, e principalmente estar com quem nos traz boa energia, de que tanto estava a precisar.
Valeu por tudo, pelo jantar antes, pela parvalheira na fila do café, a galhofa do início ao fim. 
E sim, também pelo Bryan, pelas canções de sempre. 
Apesar de ser um cantor da infância, é também um cantor da adolescência, e principalmente dos amigos que fazem parte da minha vida desde então.
Estavamos nos anos 90 quando o vimos ao vivo pela primeira vez, nada mais nada menos do que no palco (uma história que já contamos aos filhos e contaremos aos netos).
Depois voltamos a vê-lo em 2003, desta vez na bancada porque uma amiga estava grávida (a nossa primeira grávida!) e foi um concerto com muita emoção. 
Pelo meio tinham passado muitas festas, muitas noitadas, muitas viagens de carro ao som dos grandes clássicos do Bryan. 
Os anos passam, a amizade e as canções ficam.
Foi tão bom! 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Truques para não flipar (nesta e noutras épocas)

Não pensar nisso.
Nisso, o quê?
Nisso tudo. Não pensar em nada.

É isso.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Ainda sobre o Natal

Acho que já aqui fiz um post muito parecido com este, mas a sensação repete-se.
Eu gosto do Natal. Gosto mesmo muito. Mas gosto da noite e do dia de Natal. Ali a partir do dia 23, em que começamos a fazer rabanadas.
Por mim as decorações eram feitas nesse dia.
Este Natal arrastado desde o S. Martinho cansa-me. Olho para as lojas e ia jurar que estavam assim todas decoradas desde o ano passado. Tudo o que é demais perde a piada.
Infelizmente, quer queiramos quer não o Natal é consumista. E entre a black friday e os brinquedos todos a 50% eu juro que perco o restinho da minha paciência.
Costumo fazer as compras (para as crianças principalmente, mas são muitas) logo no início da época, para depois poder usufruir - aquela coisa de "ficar despachada", agora atentem na estupidez deste termo, ficar despachada, despachar as compras, zás trás pás está feito. É estúpido. É um stress, e é a antítese do espírito de Natal.
Depois há cada vez mais solicitações, as famosas aldeias do Natal que pululam, pelo menos aqui na zona. Pais natais gigantes, rodas ainda mais gigantes, árvores deslumbrantes, pistas de gelo, duendes, até renas ensopadas em alcatifa verde, há de tudo para supostamente criar uma magia que, deixem que vos diga, desaparece ofuscada por tantas luzes a piscar!
Menos, senhores, menos!

Este ano ainda não tive coragem para dar o grito da revolta e acabar de vez com este disparate.
Já fizemos a árvore, já fomos à aldeia de Natal gratuita, mas ainda não fiz uma única compra de Natal.
Não estou a stressar porque tenho mais em que pensar, mas pergunto-me quando é que isto dá a volta e voltamos todos à simplicidade dos Natais de antigamente.
(acho mesmo que já estivemos mais longe)

domingo, 1 de dezembro de 2019

Juro que não tem nada a ver com o facto de estar a viver uma das épocas mais difíceis da minha vida

Christmas is so not my cup of tea.

(pronto, tenho dito. Em inglês, para não parecer tão mal) 

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Livro 41/40

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Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho

Antes de mais, palmas para mim, que segundo o Goodreads este foi o 40º livro do ano (o do meu pai não está lá) pelo que quando o terminei tive direito a uma pequena celebração e tudo. Muito orgulho em mim e nesta resolução de ano novo bem sucedida.

Agora o livro.
Passa-se entre os Estados Unidos dos anos 60 e a Polónia desde os anos 20 até à II Guerra. Pelo tema, nunca diria que foi escrito por um português, mas foi. E que bem escrito que está!
A história prende, a forma como está contada também, e aquilo que mais me chamou a atenção foi o enorme respeito pela História. Não é contar por contar, houve investigação, há respeito pelo passado, há profundidade em cada detalhe neste romance que sendo ficção conta também a História do mundo no séc. XX.
Não consegui parar de ler.
Dei 5 estrelas e recomendo muito.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Coisas boas no meio das tempestades

Porque é sempre bom ver o lado positivo de tudo, também nas tempestades aparecem raios de sol. 
Com esta situação do meu pai (e da sua falta de saúde) custa-me muito andar sempre a alterar as rotinas. Todos os dias é preciso alguma coisa, e muitas vezes a chego a casa já depois dos miúdos estarem a dormir (e o que isto me custa!).
Mas depois há serões que ficamos os dois a ver o Visita Guiada, tardes de conversas com tios e tias que o vêm visitar, há vindas mais frequentes da irmã que vive longe, há almoços com sobrinhos queridos a meio da semana e eu sei (e sei mesmo, porque já passei por isto) que estes dias são difíceis oh se são, mas caramba, vou ter saudades disto tudo quando a tempestade passar. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Anúncios de Natal

Um grupo de crianças tira fotografias com os seus tablets e telemóveis a um senhor que está na sua vida, no café ou no barbeiro, sem a sua autorização.
Isto é uma cena fixe?
Por as criancinhas e tirar fotos às pessoas tipo macaquinhos do circo?
Sinceramente... 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Livro 40/40

O Cego De Sevilha, de Robert Wilson

Há uns anos atrás emprestaram-me o Último Acto em Lisboa do mesmo autor e venderam-me como se fosse um livro imperdível. A cunhada, a irmã, a sogra, até o Tê, todos foram unânimes que o livro valia a pena. Ora, como é um clássico, comecei a ler e aquilo não me disse nada. Lembro-me que embirrei com qualquer coisa e desisti ao fim do primeiro capítulo (coisa que já não faço, sou mais persistente). O livro ainda andou lá por casa uns anos até o devolver mas não me convenceu.
Este vi em casa da Sofia (companheira blogger e leitora assídua) e trouxe emprestado, também com boas críticas tanto dela como da minha irmã e pai.
Também não me convenceu. É daqueles livros que li porque agora não desisto mas nada daquilo me atrai especialmente. 
Não entrei na cabeça da personagem principal, há pontas soltas, há descobertas que acontecem por acaso, há suspeitas que são dadas como confirmadas sem explicação, chegamos ao fim e pronto, ok, descobrimos o assassino sem grande entusiasmo. 
Valeu pelos diários do pai do detective, que para mim são o melhor do livro. 
Dei 3 estrelas por isso.
Recomendo mas não achei grande coisa. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

E no entanto...

... entre idas e vindas do hospital, a vida acontece, alheia ao que se passa por aqui.
Passo nos jardins e palácios mais incríveis e as cores de Outono estão no auge. Passamos na rua e cheira a castanha assada. Retomo as caminhadas de madrugada com uma amiga, e vamos pondo a conversa em dia.
Chego a casa de noite e dou com os três de pijama a brincar no quarto do mais velho (sem ser aos moches). Conto-lhes uma história e adormecem na minha cama.
E cada vez mais sinto que é isto. A vida são estes pequenos momentos, estes instantes tão breves que é fácil passarem por nós sem darmos por ela.
Estejamos atentos e vivamos o presente. A vida é isso mesmo.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Silêncio

Temos andado este ano entre tempestades e bonanças, sem nunca termos podido respirar fundo.
Vivemos agora um momento em que os silêncios dizem tanto ou mais do que as palavras. No silêncio ficam as perguntas que não temos coragem de fazer, ficam as dúvidas que não temos vontade de esclarecer, ficam as certezas por confirmar.
Juro que não sei o que o futuro nos reserva, só sei que já perdemos a inocência e quase nada nos surpreende.
Neste silêncio todo, só tenho uma coisa para dizer: o cancro é uma (grande) merda.