sábado, 8 de março de 2008

Crónicas dos primeiros tempos - a casa do Sul


Ao fim de 2 dias a tentar marcar encontro com o Tony (liga, combina, ele liga a marcar para mais tarde e depois liga a desmarcar e assim sucessivamente) lá nos encontrámos com ele. Apareceu na sua carrinha, ainda hesitámos em entrar mas basicamente não tínhamos opção, e levou-nos ao Sul de Rotterdam. A ideia inicial seria alugar um quarto. Levou-nos a ver um quarto que tinha livre num apartamento provavelmente habitado por animais selvagens... estava um calor de morrer, havia móveis virados ao contrário, comida e roupa espalhadas pelo chão, e o rapaz que lá vivia tinha desaparecido (sem pagar o que devia ao Tony, obviamente). Temos Tony furioso, e este quarto não era definitivamente para nós.
Fomos ver um apartamento que não estava em muito melhores condições (ao T. ocorreu de verdade que ia haver um sem-abrigo aninhado no sofá quando entrámos). Aquilo que ele nos explicou foi que, mais uma vez o casal que lá vivia não lhe pagava a renda há meses e ele decidiu correr com eles. Basicamente a casa estava como eles a tinham deixado. Com roupa espalhada, uma chávena de café em cima da mesa (a mesma mesa de onde escrevo agora mesmo), e uma infinidade de objectos pessoais. Apesar do estado, a casa em si não estava nada mal. Depois de regatear o preço da renda fomos para casa (ou seja para o Suriname) pensar e tomar uma decisão. A verdade é que não havia muito por onde escolher e a decisão foi fácil de tomar.
No dia seguinte confirmámos ao Tony que ficávamos com a casa.
E as coisas? Que fazer com as coisas? Podem deitar fora tudo o que não quiserem, foi a resposta.
E assim foi. Munidos de luvas, máscaras e toda uma panóplia de produtos de limpeza e desinfecção lá fomos tornar a nossa casa habitável.
Havia uma infinidade de objectos parvos e anormais. Havia cotonetes (limpas, valha-nos isso) espalhadas por toda a casa. Havia uma fruteira cheia de moedas de 1 cêntimo. Havia uma mala com roupa. Havia uma caixa dos Correos espanhóis cheia de cartões magnéticos em branco (altamente suspeito...).
Subimos e descemos a escada íngreme vezes sem conta para deitar fora tudo e mais alguma coisa. Ao fim de 1 dia tínhamos a casa pronta a habitar. Dissemos adeus ao Suriname e mudamo-nos para a nossa 1ª casa.
Uma semana e uns dias depois da chegada tínhamos encontrado casa.

E foi uma casa que nos marcou, e de que maneira.
Há momentos que não vamos esquecer:
  • quando o ex-inquilino veio perguntar pelas coisas dele, especialmente pela sua cama
  • quando veio um senhor inspector do gás e eu e o G. fomos super simpáticos com ele, demos-lhe água e fomos buscar um banco para ele subir e tudo, para depois percebermos que ele nos ia fechar o gás por engano
  • quando apareceu o Nino
  • quando vieram inspectores analisar o esquentador e tirar fotografias a tudo e pedir os nossos passaportes num sábado de manhã em que tínhamos a minha irmã, cunhado e sobrinhos de visita (que tiveram de apresentar os bilhetes de avião e tudo)
  • quando o T, descobriu uma surpresa na gaveta do forno
  • quando tivemos 6 ou 7 amigos a dormir um pouco por toda a parte
  • quando a casa ficou à venda
  • quando uns meses depois de nos mudarmos fomos mostrar a casa aos meus pais e quando o T. mete a chave na porta de baixo dá de caras com um rotteweiller e só tem tempo mesmo de a voltar a fechar rapidamente
Era uma casa tão pequena tão pequena que no lavatório apenas cabia uma mão aberta, podíamos levantar o frigorífico para limpar por baixo, e no nosso quarto não cabia nada mais do que a cama.
Ficava depois do Maastunnel (um túnel debaixo do rio), e quem o atravessou não o esquece.
Ficava ao pé do supermercado Netto, de um bar que estava sempre às moscas, de uma loja de noivas, de uma loja de electrodomésticos onde comprámos a nossa varinha mágica, de uma sex-shop.

Uma casa com muitas histórias para contar...

sexta-feira, 7 de março de 2008

O que é meu...

Aos poucos vou restabelecendo a minha rede de contactos.
Um CV para ali, um mail para uma ex-colega, um telefonema, uma conversa no Skype.

Às vezes com mais stress, outras com mais tranquilidade. Tento não pensar muito nisso.
Respiro fundo.

O que for meu às minhas mãos há-de vir parar.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Things I won't miss

O pão.

terça-feira, 4 de março de 2008

Placebo

Em 1 ano e 9 meses a trabalhar na PLT fiquei doente apenas 2 vezes - 1 dia em Outubro 2006 e 1 dia em Julho 2007.
No ano passado levei a vacina da gripe, e fartei-me de tomar vitaminas para reforçar as defesas (até que , ao fim de 6 meses, alguém teve a brilhante ideia de me informar que as vitaminas abrem o apetite - coisa que eu confirmei! Naba naba naba!!!) mas ainda assim constipei-me umas vezes.
Este ano voltei a levar a vacina da gripe e como não quis voltar às vitaminas optei pelo Actimel.
Não faço ideia o que tem lá dentro, essa do lacto casei não sei mais o quê não sei se é verdade ou não. Sei que desde Setembro que tomo um todas as manhãs antes de sair - é bom e sabe bem. E não sei se é um "placebo effect" ou não mas a verdade é que este Inverno houve epidemias de tudo e mais alguma coisa no escritório e eu fui sempre sobrevivendo. E tirando uma ou outra dor de garganta que passa de um dia para o outro com o milagroso chá de cebola, não tenho mais histórias para contar.
Este é um hábito que vou manter.

Férias

Sábado - horrível. Uma tristeza e um vazio de fazer chorar as pedras da calçada (esta expressão é linda, pena que cá não há calçada mas adiante).
Domingo - um pouco melhor, mas o vazio continua.
2ªfeira - estranho, muitas ideias de coisas para fazer, mas sensação de que inutilidade.
Hoje - sim, sinto-me de férias!

E há-que aproveitar que cheira-me que vão passar num instante!

segunda-feira, 3 de março de 2008

No country for old men


Ontem vimos este filme.
Gostei muito, mas confesso que não estávamos com a disposição certa para o ver. Se fosse noutro dia provavelmente gostariamos mais.
Vimos em casa e é um filme que vale a pena ver no cinema (foi a primeira coisa que eu disse mal começou o filme). É um filme grande, com paisagens grandes e personagens grandes que enchem o ecrã.
E tiro o chapéu ao Javier Bardem. Está genial.
Um filme que vale muito a pena.

Ora aqui está uma novidade...

...um post escrito por mim às 10h30 de 2ª feira.

Inédito.

domingo, 2 de março de 2008

Things I won't miss

Ter de ir de bicicleta para todo o lado.
Quando chove a potes ou está um frio de rachar, pensar que não temos outro meio de transporte. Sair do cinema e levar com uma chuvada até aos ossos; pior ainda ir trabalhar de manhã e levar essa mesma chuvada; ir jantar fora ou sair à noite e regressar a casa a pedalar contra o vento...
Às vezes apetece o quentinho e o conforto do carro.

Things I'll miss

Ir de bicicleta para todo o lado.
É saudável, barato, não precisa de combustível, não se perde tempo à procura de estacionamento e é de fácil manutenção.

sábado, 1 de março de 2008

Mais um passo III

Estou oficialmente desempregada. E estou mesmo triste.
Andei dias e semanas a contar os dias, e no fim custou-me muito mais do que eu pensava.

Num resumo resumido nesta confusão de emoções a conclusão a que chego é que tive muita sorte. Muita sorte por o destino me ter colocado a trabalhar ali. E eu sei que estava escrito, que aquele lugar era meu. Estranho pensar que estas pessoas não me eram nada, não as conheci por serem amigas de ninguém. São minhas, e são-no por mérito próprio (delas e meu) por nos termos tornado amigos para além das paredes do escritório. E tive sorte também não só pelos que já lá estavam quando eu comecei (e que de certa forma já eram amigos entre si também), mas também pelos que vieram a seguir.
Levo-os a todos no coração.

Eu sei que refilei muito, que muitas vezes me custou o mundo levantar-me da cama para ir para lá, que me senti a atrofiar, a regredir, a fazer sempre as mesmas coisas, apenas a resolver problemas sem construir nada de novo.
Ontem tentei focar-me nesses momentos mas não consegui.

Sempre pensei que me fosse sentir feliz e aliviada. Fiquei com um nó na garganta o dia todo a conter as lágrimas.
E hoje estou com uma ressaca do tamanho da minha tristeza.

Sempre tive a certeza de que estou a fazer a coisa certa até ontem.
Ontem pela primeira vez tomei consciência do meu passo.
Sou portuguesa, vou voltar para Portugal e não tenho emprego.
Estou a trocar um emprego fixo, com contrato permanente (que ia começar na 2ª feira) com todas as regalias pela oportunidade de seguir o meu sonho (até pareço os da Operação Triunfo a falar...).
Só espero não me arrepender. Só espero que o meu país não me faça arrepender, porque que isso acontecer eu não lhe vou perdoar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Última semana de trabalho

- manager doente, eu a substituir
- aprender a trabalhar com o programa de supervisor de call center para poder abrir/fechar linhas telefónicas, mudar/acrescentar/excluir agentes e esse tipo de coisas
- ver as pessoas novas a olhar para mim como uma verdadeira supervisor
- ter os membros da equipa a contar comigo para tomar decisões e dar autorizações (eu?!)
- entrevistar novos candidatos porque a HR também está doente
- ver a equipa a ficar doente, um por um
- ter uma equipa de 12 reduzida a 4 gatas pingadas
- receber chamada atrás de chamada, de chamada , de chamada
- ir ao gabinete do big chefe e dizer-lhe o que penso (e até me saiu uma frase tipo "eu bem avisei" - e é verdade...)
- ver o big chefe enterrar-se nos seus próprios erros e tomar medidas que disse que não tomaria
- mandar mails directamente ao big chefe e voltar a dizer tudo o que penso (ah, a doce liberdade de não ter medo de perder o emprego)

E ainda faltam dois dias...

Tem sido uma semana completamente atípica, mas tenho aprendido muito também... acho que para a semana me vou sentir aliviada, mas um pouco vazia porque estes dias têm sido bem cheios!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Conversas à vinda do Bas


O Bas é o supermercado tipo Lidl, que em Rotterdam se chama Bas e aqui se chama Dirk mas para nós ficou Bas por força do hábito.
Quando vamos ao supermercado há sempre dois temas de conversa no regresso. Normalmente é de noite, cada um em sua bicicleta, eu sempre com o mega saco do Netto (que é outro supermercado, este no sul de Rotterdam, e o saco foi oferecido às meninas em Abril 2006 e ainda cá anda - muito útil, toda a semana vai à rua e regressa na minha grade de trás), ele com sacos do Albert Hein pendurados no guiador (e faz-nos falta o terceiro elemento, que insistia em vir mais carregado que todos, com a mochila a rebentar e o papel higiénico debaixo do braço - que saudades!)

Anyway, no regresso do Bas há sempre dois temas de conversa que não nos escapam:

1) "O Mafaldo está vazio/fechado/a olhar para o boneco"
O Mafaldo é um pronto a comer com comida mediterrânica que nos chamou a atenção pelo nome original: Mafaldo. Ora, o Mafaldo, desgraçadamente está sempre sempre sempre vazio, mas houve uma vez que lá passámos (uma vez!) e o Mafaldo estava cheio de gente! Era gente de pé à espera da sua vez, gente ao balcão, gente por todos os lados. Como é fácil de imaginar até hoje continuamos a fazer filmes acerca da noite em que o Mafaldo estava cheio - quem eram as pessoas? era o aniversário do Mafaldo? era a família? estavam a dar comida? era um grupo de amigos grande? era um grupo de colegas que ficou a trabalhar até tarde e foram ali todos jantar? A imaginação não tem limites, e claro, sempre que lá passamos o Mafaldo continua vazio, e nós continuamos a tecer teorias sobre o que se terá passado naquela noite.

2) "Aquele candeeiro é mesmo giro"
Há uma casa que tem um candeeiro mesmo giro. É igual ao nosso da sala (quem conhece fica a saber) mas em tamanho gigante. Não há vez que passemos por ali que não haja referencia ao candeeiro giro. Normalmente vimos no caminho ainda a comentar o Mafaldo e o assunto acaba quando passamos na casa do candeeiro giro. Talvez por isso nunca tenhamos chegado a nenhuma conclusão.

Já que estou aqui a falar do supermercado aqui ficam dois pormenores curiosos em relação aos meus companheiros desta vida (eu provavelmente também tenho os meus pontos fracos, mas guess what? o blog é meu, e quem quer que deixe comentários - hihihihi)
O G. cedo descobriu o meu mau feitio e esta minha mania de estar sempre em "dieta" e não comprar porcarias, pelo que desenvolveu estratégias infalíveis no supermercado para esconder os doces no carrinho de modo a eu apenas os ver quando já estavam pagos. Na hora de pôr as compras nos sacos surgiam Nutelas e bolachas de chocolate atrás do leite e da alface - o pior é que muitas vezes fui eu que os comi, e não ele... Hoje quando estávamos a pôr as compras no saco, o T. comentou - "Não trazemos guloseimas!" - e aposto que sentiu a falta de quando éramos três!
Um clássico dos clássicos nas idas ao Bas é o T., na hora de pôr as coisas na passadeira, dizer: "acho que exagerámos, não vamos conseguir levar isto tudo" e "isto não vai caber tudo, acho melhor comprar outro saco!" - até agora nunca foi preciso, mas ele não se convence.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

E a banda sonora do momento é...



Ana Carolina e Seu Jorge.
Esta é a minha preferida.

Crónicas dos primeiros tempos - bater no fundo

Na primeira semana que passámos na Holanda houve dois momentos a que chamámos "bater no fundo", ou seja, quando vimos a coisa tão grave que pusemos em causa tudo e mais alguma coisa. O que valeu é que tivemos esses momentos em diferido, e não os dois ao mesmo tempo, pelo que deu para nos aguentarmos e não desistir.

Quando o T. bateu no fundo
Foi logo 2 dias depois de chegar.
Combinámos com a N. encontrarmo-nos na manhã de sábado - ainda não tínhamos estado com ela. Como é típico da N. resolveu combinar um café com a sua melhor amiga de cá nessa mesma manhã. Lá fomos. A amiga era inglesa, muito simpática à primeira vista, super despachada e cómica. Conversa puxa conversa e claro, o inevitável assunto (que nos persegue desde então) do "então porque é que vieram?" surgiu à baila. Lá explicámos um pouco o porquê da nossa decisão. Depois foi o descalabro. Ela resolveu não só dar a sua opinião sobre o país, mas também se pôs a desenrolar um sem número de dificuldades que iríamos enfrentar e de erros que já estávamos a cometer. E o pior de tudo é que a N. lhe fazia coro e dizia que sim.
Que nunca iríamos falar o idioma de modo perfeito, que sem falar holandês íamos ter graves problemas ("the language will definitly be an issue" - parece que a estou a ouvir), que as casas são caras, que os holandeses são frios e antipáticos e não ajudam ninguém, que foi uma estupidez termos trazido o carro, que os parquímetros são caros e que assaltam os carros estrangeiros. À medida que iam saindo palavras daquela boca eu e o T. íamo-nos sentindo cada vez mais pequenos, cada vez a diminuir mais de tamanho tipo Alice não no país das Maravilhas, mas no país dos Horrores. No fundo ela estava cá porque o namorado, agora marido, é holandês, e não compreendia como podíamos nós vir para cá por opção. Até aqui eu até compreendo, mas aquilo que eu não esqueço foi a atitude da N., a concordar com tudo o que ela dizia - quando muitas das decisões que tomámos foi baseados na opinião dela nas semanas anteriores.
Apesar de toda esta negatividade, eu pessoalmente não fiquei muito abalada pois estava confiante na nossa sorte, e tentei não dar importância à coisa. Depois do café a amiga foi embora e nós fomos almoçar. O T. nem conseguiu comer...
Quanto à amiga, o mais estranho é que nunca mais a vimos. Nunca mais houve ocasião de voltar a tomar café com ela, apesar de ela ter muito contacto com a N. e nós na altura também. Sei que casou e que agora vive em N.Y. Era bem feita que alguém lhe fizesse o mesmo que ela nos fez a nós!

Quando eu bati no fundo
O meu bater no fundo ocorreu uns dias depois.
Depois de tratarmos das primeiras burocracias - So-Fi nummer, registar no consulado português, registar na Câmara Municipal - chegou a altura de procurar casa. Sabíamos que muitas agências de emprego só aceitavam quem tivesse morada na Holanda. Fomos então em busca de agências para alugar casa, e chegámos à conclusão que só podíamos alugar casa se tivéssemos contrato de trabalho.
É uma das situações típicas da burocracia deste país, que é o preso por ter cão e preso por não ter. Não temos casa porque não temos trabalho e não temos trabalho porque não temos casa.
Lá com opiniões de inglesas snob, ou dificuldades em tratar do carro podia eu. Mas nesse dia senti que me tiravam o tapete de debaixo dos pés.
Estávamos ainda na pensão dos surinameses (que para nós ficou "O Suriname") a pagar dia a dia, pois sabíamos que não podíamos ficar muito mais tempo.
Há uns anos atrás houve uma inspecção geral em toda a Holanda para deportar imigrantes ilegais - muitos deles viviam em pensões como esta e os donos receberam pesadas multas. Por isso a pensão se chamava Short Stay Accomodations, não fosse alguém pensar em ficar por lá 6 meses ou coisa que o valha. Resultado, chegámos à pensão e tivemos de ir falar com os donos, explicar que de momento estávamos sem casa e que teríamos de ficar pelo menos mais uns dias. Foi o descalabro II. Basicamente desfizeram a réstia de esperança que eu ainda tinha. Disseram literalmente que o melhor era ir embora da Holanda, que não vínhamos em boa altura, que trabalho só mesmo nas limpezas e que só lá para Março ou Abril. Disseram que não podíamos ficar, por muito que nos quisessem ajudar.
Ficámos os dois de boca aberta a olhar para eles, mas dissemos que pelo menos mais uns dias tínhamos de ficar - é que nem tínhamos outra hipótese.
O dono resolveu então ir falar com um português que estava também hospedado - o Sr. Rui, electricista - a ver se nos podia ajudar. Ora o Sr. Rui devia estar a fumar a sua erva no quarto quando fomos lá bater. Apareceu com uma grande moca naquela cabeça, e praticamente sem dizer coisa com coisa.
Quando demos por ela estávamos os dois numa cozinha minúscula, com o Sr. Rui pedrado a olhar para o mapa de Rotterdam à procura da Beurs - que é o centro, ou seja, mais fácil de encontrar impossível -para nos explicar onde era o Café Lisboa. Era ele em silencio a olhar e com o dedo à procura e os minutos a passar - só visto. Eu, do nervoso, comecei com um ataque de riso valente, sem conseguir parar. Era insólito demais. Ele continuava à procura da Beurs, o T. de vez em quando ia dizendo "deixe estar, nós depois procuramos". Não foi uma grande ajuda, mas ficou a intenção.
Foi a minha vez de pôr tudo em causa. Ali estávamos no meio da Delfshaven, em pleno Suriname, sem casa, sem trabalho, com 1000 tralhas e um carro à porta. Teria valido a pena?

Nessa noite ligámos à N. e dissemos que não podíamos arranjar casa através de uma agência, e pedimos que ela nos desse um contacto de alguém para alugarmos uma casa. Umas horas mais tarde ela ligou-nos com o telefone de um senhor chamado Tony, que alugava clandestinamente meia Rotterdam.
E depois de bater no fundo, o caminho só pode ser para cima.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Almost Grown


Uma coisa que nunca comentei aqui foi de onde surgiu o nome deste blog.
Lembrei-me hoje de o fazer porque estivemos aqui a relembrar séries antigas.

Lá em casa viu-se entre muitas outras uma série de que ninguém se lembra e que deu origem ao nome do meu blog - Almost Grown.

Contava a história de um casal divorciado com dois filhos adolescentes, e de vez em quando fazia flashbacks para o seu passado nos anos 60 e 70 - eram as minhas partes preferidas: lembro-me de uma cena dela grávida na piscina (e toda a gente com aqueles bikinis de flores e toucas lindas de morrer), e de outras cenas deles em festas e no liceu.

Os poucos registos que encontrei foi esta descrição, e o genérico neste conjunto de genéricos de 1988 (que começa com o McGyver, esse clássico):



Não sei porquê mas a série ficou-me na memória, tinha assim um certo encanto a questão do antes e do depois, da comparação nas roupas, nas casas, no estilo de vida entre a época em que os protagonistas se conheceram e o momento presente (que era 1988, ou seja deixa lá ver, há coisa de...20 anos!).
A série marcou-me e o nome encaixa perfeitamente nesta fase da minha vida.

Emigração

Comentou o Sr. Rebelo quando veio cá buscar as coisas que há muita gente a regressar a Portugal. Gente da nossa geração, apressou-se em acrescentar.

Se compararmos a nossa geração de emigrantes com a do Sr. Rebelo vemos que são realidades completamente diferentes.

Quando saímos tínhamos outras opções, não viemos por ser esta a última saída. A maioria de nós estudou. Viemos viver uma experiência, à procura de novas vivências e aventuras a que não teríamos acesso em Portugal. Acabada a novidade regressamos a casa.
E regressamos a um Portugal felizmente muito diferente do Portugal deixado pelo Sr. Rebelo, que está cá há mais de 30 anos.

Viemos realizar um sonho, procurar uma vida melhor, procurar aquela abertura de mentalidade que não encontramos em Portugal, mas ninguém em Portugal depende de nós.
Apesar disso também trabalhamos nas fábricas e nas limpezas, e fazemos os trabalhos que os outros não querem fazer, mas basicamente nada nos prende, temos mais opções, vivemos num mundo mais pequeno, em que tudo está mais próximo e tudo parece mais fácil.

Principalmente acho que nós somos uma geração de "filhos da mamã" ao contrário da geração que abandonou Portugal nos anos 60 e 70.
O Sr. Rebelo, como os nossos pais, quando tinham a nossa idade eram bem mais crescidos do que nós somos agora.
Somos a geração do viver fácil, pois sabemos que temos os nossos pais que nos protegem se tudo correr mal - se ficarmos sem emprego e sem casa, havemos sempre de ter um tecto, uma cama e comida (da boa!) na mesa em casa dos pais. Há 30 anos foram os filhos a sustentar os pais, com o dinheiro enviado ao fim do mês - os filhos emigrados a viver com o básico para poder mandar o dinheiro para a família.

Visto desta perspectiva não deixo de achar que somos uma geração de emigrantes assim um bocado cobardolas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

E aí vão cem para os trinta

E a 100 dias de fazer 30 não tenho a menor ideia de como vai estar a minha vida nessa data:
casa? trabalho? dinheiro?
(mais um bocado e pareço um horóscopo)

Sei que desses 100 pelo menos 30 vão ser passados cá e de férias. (esfrega as mãos de contente!)

Depois são mais uns quantos de incógnita.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O meu próprio comentário ao post anterior

Tenho a mania que sou esperta e que ando de um lado para o outro com uma perna às costas mas não ando.
Mudar de casa, de emprego, de país e de vida é cansativo e custa dinheiro e dá muito trabalho e preocupação. Além de que às vezes é uma grande seca.

Que fique aqui isto escrito com a minha própria mão, para se algum dia esta ideia me passar pela cabeça outra vez.

(às vezes não há paciência para me aturar)

Em véspera da vinda dos Transportes Rebelo

Mas porquê? Porque é que cada vez que dou por ela já estou envolta em caixotes e malas a empacotar tudo de um lado para o outro??
Sei que ainda falta muito, tanto que nem lhe vejo o fim. E sei que ainda tenho muita caixa, muita carrinha atolada de coisas, muito jornal a embrulhar o que se parte, à minha frente e isso dá-me uma preguiça...

Quando é que eu vou ter uma casinha minha, mesmo minha, onde eu possa pintar as paredes da cor que eu quiser e deitar fora de vez os caixotes de mudanças (que me perseguem)?

Quando é que eu vou deixar de ter as minhas coisas encafuadas dentro de armários, debaixo de camas que já não são minhas? Quando é que vou poder ter as minhas coisas todas juntas debaixo do mesmo tecto?

Estou mesmo farta desta vida de cigana. Não tenho jeitinho nenhum para andar com a casa às costas (sempre achei que sim) nem espírito aventureiro de andar sempre em mudança (que também sempre achei que tinha).
Se calhar já tive, mas acabou.
Pois, deve ter sido isso.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A visita da R.


Agora que ela regressou e que já fez o seu resumo da estadia, já posso dar eu a minha impressão da sua vinda.

Parecia que tinha cá estado ontem. Basicamente para mim ela faz parte da mobília quando cá está e não destoa.

É engraçado ouvi-la dizer vezes sem conta "Pessoal, é que eu estou em Amesterdão!" - porque nós também estamos, mas não damos conta.
É estranho e giro ver as coisas pelo seu entusiasmo, a querer ver tudo e aproveitar todo o milésimo de segundo.

E foi muito pouco tempo que estivemos juntas, mas foi suficiente para ir ao Vondel, ao centro e à Waterlooplein de bicicleta (ela no seu lugar de sempre, na grade da bicicleta do T. com a sua toalha branca a fazer de almofada), fazer compras com as coleguitas, jantar, ver fotos, descobrir rádios pela internet, ter conversas sobre diferenças culturais no tram, conhecer os meus companheiros de comboio (um francês e uma alemã) e até tirar uma foto na paragem dos táxis de Hoofddorp (quantas pessoas conhecem vocês que tenham ido a Hoofddorp?!)

Foi pouco mas foi bom. E foi bom principalmente por poder partilhar pequenos detalhes da minha vida de cá.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

A lei do mais forte

Ora aqui está uma diferença cultural que continua a fazer confusão.

O sistema nacional de saúde deste país, que eu (bate na madeira) ainda não tive o prazer de contactar, defende a lei da selva, que é como quem diz da sobrevivência dos mais fortes.
Quem vai ao hospital é melhor que entre pelas portas das urgências à beira da morte, caso contrário arrisca-se a uma experiência no mínimo insólita.
Sangue, fracturas expostas, braços partidos é favor esperar a sua vez na sala de espera - e ninguém reclama. Se não está entre a vida e a morte pode esperar duas ou três horas à vontade. E como eles são calmos e educados aguentam estoicamente a dor sentados no seu canto e caladinhos - porque sabem que só os mais fortes sobrevivem.
Anestesia, analgésicos - para quê? Se partiu é normal que doa, e essas coisas custam dinheiro ao estado.
Olhos vermelhos, dores de cabeça ou de barriga e a resposta é "Vamos ver se a dor se mantém durante 3 semanas. Depois volte cá." Ora em três semanas pode ter a pessoa morrido de ataque cardíaco. Pois, é a lei do mais forte, se era para morrer de qualquer modo então mais vale não gastar recursos.
Grávida? Fazer a vida normal, frequentar o ginásio, andar de bicicleta, saltar à corda se for caso disso, que neste país querem-se embriões fortes e se for para serem fraquinhos é melhor que não vinguem mesmo. Ficar na cama para aguentar uma gravidez até ao fim - no way! Se for possível ter os filhos em casa, melhor, mas se forem ao hospital também não esperem por uma epidural - ah, e duas horas depois de parir toca a ir para casa.
Antes de ir ao médico há que ir ao médico de família, que então decide mandar ao especialista ou não.
Fazer um check up é para eles incompreensível.

Todos os que tomam contacto com o sistema nacional de saúde têm uma história para contar, mas para mim a mais hilariante é a do marido de uma colega (holandês de gema - não vá pensarem que isto só acontece aos estranjas). Estava com dores fortes na barriga, sem apetite entre outros sintomas mais aparatosos há vários dias. Resolve ir ao médico, sob o fantasma de uma ulcera nervosa, ou mesmo algo pior. A médica apalpa-lhe a barriga e diz-lhe que não é nada - "vamos ver como corre nas próximas semanas". Ele perguntou se não seria melhor fazer exames, análises, algo mais exaustivo, ao que ela (que, sublinho, é médica!) responde:
"Não vale a pena, é que sabe, na zona do estômago e dos intestinos há muitos mistérios por resolver..."

Ficamos assim, então.

Mudança



sábado, 16 de fevereiro de 2008

Ideias


Num dos primeiros livros que li este ano, "It's not how good you are, it's how good you want to be" de Paul Arden, comprado no aeroporto antes de ir para Lisboa no Natal , li uma frase/pensamento que pelos vistos me ficou a matutar e só agora o consegui digerir.

Ideas are open knowledge. Don't claim ownership.

Nestes últimos dias tenho andado dedicada ao tal projecto que falei aqui, e foi mais do que evidente a minha tendência herdada da minha formação em História - sempre a pôr citações, nomes das fontes, a tentar manter a ideia mas mudar a frase sempre com o fantasma do plágio a pairar sobre a minha cabeça, e também como o projecto não foi começado por mim, a tentar manter a autoria de uma parte e da outra para não ficar com louros alheios. Parei para pensar.

Não interessa.
As ideias, como dizia o Paul Arden mais à frente, não nos pertencem. Pairam no ar à procura de uma cabeça que as receba, ou então são geradas por outras ideias e outras e outras. A Isabel Allende também disse um dia que os livros dela já existiam por aí, e que ela se limitava a escreve-los. Têm vida própria, não são de ninguém.

Num trabalho académico há regras a cumprir que não têm necessariamente que se aplicar ao trabalho e à vida do dia a dia.

Chego à conclusão que passei demasiado tempo da minha vida a tentar deixar claro quem teve qual ideia, esta foi minha esta foi tua, e - o que é pior - a tentar não copiar a ideia de ninguém (se a ideia foi de X eu não vou fazer igual).

Se uma ideia for boa, tem mais é de ser aproveitada por toda a gente sem medo de estar a roubar. Uma coisa é manter uma ideia em segredo a bem do negócio, outra é reclamar a sua autoria, e tentar catalogar as ideias de acordo com quem as teve.

A um mês e meio de regressar a Portugal, e com a perspectiva de me dedicar àquilo que mais gosto de fazer, vou fazer o exercício de não reivindicar a autoria das ideias.
Com o tempo, depois de o conseguir fazer comigo, começarei também a deixar de atribuir a sublinhar a autoria das ideias que não são minhas.
Elas andam aí, e são de todos.

Dito isto, aqui há actualizações.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Things I'll miss

Receber na caixa do correio uma revista com uma carta do meu pai, à sexta à tarde ou sábado de manhã.

O meu pai é a única pessoa que conheço que mantém viva a tradição de escrever cartas à mão. Uma por semana.
Adoro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Hoje vai um post curtinho porque tivemos a visita da R.

Num resumo resumido fomos dar uma volta de bicicleta os três e ela, que estava com a pica toda por estar em Amsterdam (vá se lá perceber, mas pronto) e queria ver tudo e passear por todo o lado e tirar fotografias no Vondel e nos canais e na loja de cinema etc etc, passado uma hora estava feita cubo de gelo e a pedir para voltar para casa...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Eu quero uma wake-up light!!!

É costume o director geral da empresa (a nível mundial) oferecer um presente a cada empregado no Natal (para além de um postal personalizado, que ele deve passar o ano inteiro a escrever tendo em conta que é uma multinacional com escritórios por todo o mundo - adiante). Para dar uma ideia posso dizer que há três anos receberam um Ipod, há dois anos um auricular Bluetooth para o telemóvel e para o Ipod, e no ano passado recebemos um leitor de DVD portátil.

Eis senão quando este ano, umas semanas antes do Natal, começam a surgir os rumores do que seria o presente este ano.

Os mais optimistas acreditaram que seria um brinquedo destes:


Outros diziam que o presente seria uma Wake-up light da Philips:
O tal despertador que vai gradualmente aumentando a intensidade da luz recriando o efeito do nascer do sol, permitindo um acordar natural, calmo e sem o apito irritante do telemóvel. Ora, sabe quem me conhece bem que o momento de acordar não é digamos que o meu melhor momento. Pode mesmo dizer-se que eu, enfim, não tenho assim um acordar bem disposto e de bem com a vida. Diz quem acorda ao meu lado que eu basicamente sou insuportável e impossível de aturar e que só apetece bater-me. A verdade é que eu detesto acordar e sou muito sensível nesse momento do dia, pelo menos até tomar um duche. Lamento.
Como devem calcular já andava a esfregar as mãos de contente com a perspectiva de um acordar assim - ainda para mais em pleno Dezembro, que é aquela altura do ano em que não vemos a luz do dia (é de noite quando saímos de casa e quando chegamos também) nem a do sol (que não aparece nem em Agosto quanto mais em Dezembro).

Um dia recebmos um mail a falar de um artista chinês que tinha contribuido para o presente. Hmmm. Cheirou a esturro, mas a esperança é a última a morrer.
Eis que é chegado o dia de recebermos o presente. Vimos cá fora os caixotes que os transportaram e lemos no rótulo "Little Swans". OK. Cheirou a esturro ainda mais.
Quando entrámos na sala vimos pela caixa que coisa boa não devia ser:


A tonalidade azul celeste e as letras desenhadas não enganavam ninguém.
No entanto havia também uma pequena e misteriosa caixa branca, onde depositámos todas as nossas esperanças! Seria o Iphone? Ou vá, uma Playstation portátil? Um auricular último modelo???
Aguardámos até ao final da reunião trimestral, com toda a paciencia até saber o que de facto estava dentro da caixa azul:



É um prato de porcelana com bailarinas pintadas.
Estão a ver a sequência lógica Ipod - auricular topo de gama - DVD portatil - prato com bailarinas???
Mas quem teve a ideia, quem se lembrou "eh pá este ano não vamos oferecer um gadget, que esta malta não sabe apreciar, eh pá vamos dar mas é um prato, é isso, um prato com bailarinas!"
É de mim, ou isto não cabe na cabeça de ninguém??

No entanto a desilusão suprema foi quando se abriu o ultimo reduto da nossa esperança, a última luz ao fundo do túnel à qual nos agarrávamos com quantas forças tínhamos - as caixas brancas empilhadas à parte, que podiam conter o nosso brinquedo favorito para este Natal, continham afinal nem mais nem menos do que... o suporte para expor o prato!!!
O efeito final é este, e vai assim em maiorzinho para verem bem. Até tem um rebordo dourado e tudo. Enfim...uma beleza...


E assim ficou destruído o meu sonho de ter uma Wake-up light, e lá continuei eu a acordar no meio da escuridão e do ruído ensurdecedor do despertador.

Há um mês atrás no blog do Nuno Markl surgiu a oportunidade de ganhar 3 destes objectos que vão mudar os meus acordares e os meus humores o resto da vida!
Tínhamos de mandar um vídeo sob o tema "O Pior Acordar do Mundo". Lá mandámos um vídeo com um acordar bem mauzito, mas pelos vistos segundo o júri do concurso não mau o suficiente como para merecer um prémio. Temos pena...

E portanto, vou ter de continuar à murraça ao telemóvel logo de manhã por mais uns tempos, que isto agora já não estamos em época de luxos que as vacas magras já se avizinham...

Só assim como quem não quer a coisa, eu faço anos daqui a quantos dias marca ali o marcador do lado, ok?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Tal como previsto...

...a cidade ontem encontrava-se num estado de histeria colectiva insuportável.
Resolvi, como todos os habitantes de Amsterdam e arredores, apanhar um pouco de sol no Vondel Park e não havia um lugar ao sol. Era gente por todos os lados, crianças nas bicicletas, crianças de bicicleta, gente de patins, cães por todo o lado, grupos de turistas nas suas bicicletas amarelas. Resolvi passar na Leidseplein, já que precisava de comprar umas coisas e normalmente nestes dias as lojas costumam estar mais vazias. Erro. Em plena praça havia uma banda a tocar, o homem que dá toques de bola, um que joga ténis sozinho e uma pequena multidão de Free Hugs (por aí também há disso?), e gente gente gente e mais gente! Não havia lugar para as bicicletas, não havia lugar para mim em lado nenhum!

Resolvi vir para casa apanhar sol no jardim aqui em frente, de onde aliás nunca devia ter saído. Nestes dias adoro viver longe do centro!

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Crónicas dos primeiros tempos - a chegada

Os nossos primeiros dias na Holanda foram no mínimo insólitos.
Aliás é assim para toda a gente, todos temos uma história para contar de quando cá chegámos. Esta é a nossa.

Chegámos a Rotterdam numa 5a feira à noite, sem sítio para ficar, apenas com umas folhas imprimidas da net com umas pousadas de juventude e afins.
Não podemos nunca obrigar ninguém a acolher-nos na sua casa, e a verdade é que a nós ninguém nos acolheu. E mais não digo.

Parámos em frente à Central Station para perguntar onde podíamos ficar e fomos parar à Witte de Withstraat ao Homehotel.
Nesse momento começou o stress do carro e das coisas que tínhamos trazido. Que fazer? Levar tudo para o quarto? Deixar o carro carregado? Optámos por um bocadinho das duas, e esvaziamos o carro até à metade, até conseguirmos fechar a tampa.



Estávamos na Holanda!
Era todo um mundo de possibilidades que se abria à nossa frente. Acontecesse o que acontecesse tínhamos conseguido pegar na nossa vida e fazer dela o que quiséssemos. E isso era o mais importante.

No dia seguinte pusemos pernas ao caminho e calcorreámos a cidade toda em busca de um hotel barato para ficar nos primeiros tempos.
Apanhámos uma chuvada descomunal, ficámos molhados até aos ossos e cheios de frio. Pode-se dizer que foi um dia bastante deprimente.
Comemos nesse dia os restos que sobraram da viagem, um resto de bola e panados que já tinham visto melhores dias, e leites com chocolate do Lidl, pois tudo o que víamos nos parecia caro e não tínhamos ideia de quanto dinheiro iríamos precisar no futuro.

De quanto dinheiro se precisa para começar uma vida nova? Ninguém sabe, e nós nessa altura (como agora!) não tínhamos a menor noção.

Andámos de pousada em pousada e nenhuma tinha quartos disponíveis ou adequados.
Lá conseguimos encontrar uma na Delfshaven, o bairro antigo de Rotterdam, com preços acessíveis, chamada Short Stay Acomodations (mais tarde íamos perceber a razão do nome) cujos donos eram do Suriname, e era super simpáticos e acolhedores. Lá fomos buscar o carro mais as 1000 tralhas (e se o arrependimento matasse tínhamos morrido mesmo ali) e lá subimos e descemos a escadaria íngreme vezes sem conta.

O quarto tinha um beliche e uma cama, com casa de banho (em separado como é típico cá, ou seja, WC para um lado e duche para o outro) ao fundo do corredor e cozinha. No nosso andar estavam também um hippie dos seus 60 anos cheio de tatuagens e dois inter railers. A higiene não era, digamos que, o forte do local, mas entre uma coisa e a outra lá nos amanhámos que também não somos muito esquisitos com essas coisas.


Nesse dia começou o frio. Um frio gélido, como nunca mais voltámos a apanhar cá.
E nesse dia apercebemo-nos que tudo ia correr bem, mas que se calhar não ia ser tão fácil como tínhamos imaginado.

Into the Wild

Ontem vimos este filme. Muito bom.
Banda sonora excelente. Imagens lindas. Muito introspectivo.
Gostei muito. Mesmo.

"Happiness is only real when shared"

Things I won't miss

Esta urgência em fazer qualquer coisa quando está sol, esta loucura colectiva do vale tudo menos ficar em casa só porque está bom tempo. Esta sensação do agora ou nunca, de saber exactamente que o bom tempo dura menos que nada e que é preciso aproveitar mesmo que nesse dia até nem apeteça.

Things I'll miss

Dias raros como hoje, em que o sol brilha tanto e o céu é tão azul, que apetece respirar fundo!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Mais um passo II

A nossa estadia tem literalmente os dias contados.
E são 51 para ser mais precisa.

Dia 31 de Março, por volta das 19h30. Lá estaremos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Things I won't miss

As coisas passarem-me ao lado porque não pesco nada do que se está a passar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Things I'll miss

(aqui vai a primeira)

Depois de uma jantarada com amigos, regressar a casa sozinha de bicicleta a pensar na vida - passar em frente à Museumplein e sentir-me em casa.

Rubricas

A partir de hoje começarei a escrever duas novas rubricas neste blog:

1) Things I'll miss/Things I won't miss
(não gosto de pôr títulos em inglês, mas foi assim que a coisa me ocorreu, pois após algumas horas a falar sempre em inglês ou espanhol é normal pensar nessas línguas também durante um bocado - e assim foi quando surgiu a ideia de fazer estes posts à medida que me for lembrando)

2) Crónicas dos primeiros tempos
(relatos das nossas aventuras e desventuras quando cá chegámos)

São no fundo posts tipo livro de memórias para que fique registado.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O insólito

...ter 6 dias de férias e aproveitar apenas 1!

Depois de 1 ano a queixar-me de falta de férias, eis-me a negar dias de férias!!!

Nota: esses dias vão-me ser pagos, coisa que dá sempre jeito; e além disso vou ficar por aí 1 mês inteiro de férias em Março.
Está explicado - não vá pensarem que eu enlouqueci, ou que no fundo me andei a queixar para nada!

Flight of the Conchords

Andamos a ver esta série.

A história de uma banda neozelandesa a tentar vingar nos Estados Unidos.

Um humor tão simples mas tão parvo, tão parvo, que é genial!
Adoro!

Nacionalidade Oculta

De boca fechada ninguém sabe de que país venho.
Quem está fora do país, ou mesmo quem cá vem de visita, consegue num só olhar descobrir portugueses no meio da multidão. Há aquele ar de família que é comum à maioria - baixos, cabelos e olhos castanhos, mulheres de madeixas e homem de bigode- a par de um gosto de vestir inconfundível - sapatos de vela, casacos ensebados, e claro está, pouca produção, pouco acessório, pouca maquilhagem.
Ora, se por um lado consigo eu distinguir um grupo de tugas à légua, já o contrário não acontece. Os cabelos claros e pele branca são o meu disfarce perfeito, e se estiver a ler um livro em inglês então não se fala! Ninguém nunca imagina que aquela bifa da mesa do canto é tuga e está a topar toda a conversa.
Há um prazer escondido em não revelar a minha nacionalidade.
Nunca em dois anos de Holanda eu voluntariamente me apresentei ou identifiquei a alguém que esteja a falar português ao meu lado numa loja ou no supermercado. Ouço e calo-me, e observo de longe.
E, claro, já desenvolvi técnicas infalíveis para não dar cana e não dar a entender que percebo o que se diz. Não me rio das piadas, não reajo aos comentários, não sorrio sequer.
E a verdade é que uma pessoa se desabitua de perceber as conversas que se passam ao nosso lado. Quando estou no comboio ou num café normalmente não pesco nada do que se passa à minha volta, e por isso vou concentrada nos meus pensamentos. Ora quando percebo, é impossível não concentrar toda a atenção nessa conversa, por muito desinteressante que seja.
Uma vez dois mexicanos ao meu lado no comboio falavam sobre sei lá o quê, e eu devo ter feito um olhar de quem percebe ou ri-me de uma piada. Um vira-se para o outro e diz:
"Esa que está a tu lado habla español"
E diz o outro:
"No. No puede"
E diz o primeiro:
"Te lo juro que nos entiende. Mírala, mírala!"
(Eu com um ar inocente olho pela janela a conter o riso)
E diz o segundo:
"Esa chica seguro no habla español, y si te estaba mirando es porque quiere tu telefono!"
Estive prestes a, no último minuto antes de sair do comboio, lhes dizer qualquer coisa para mostrar que de facto percebi tudo o que eles disseram, mas resolvi não dizer nada e não revelar a minha verdadeira nacionalidade. Eles nunca iriam adivinhar.
E enquanto me mantiver de boca calada, posso ser quem eu quiser!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Imagens de Amsterdam






(já com uma pontinha de saudades...)

Sábado à tarde...

...lancho sempre no Max Café, em frente ao Hard Rock, à espera do T.
Aproveito para pôr alguma leitura em dia.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Viva a rede!


Ontem vivemos um episódio hilariante, que teve como palco o blog das copines Devaneios Singelos. A C. lançou um desafio, ou melhor, uma pergunta simples e o cenário estava montado! Seguiram-se posts, comentários, filmes, invenções e mais um bocadinho e a vida da C. dava uma volta sem ela dar por isso. Foi super cómico, porque vos imagino no excitex (igual ao meu) a tentar perceber a resposta e a rever os posts antigos de Maio e Junho e a comentar a 1000 à hora. E no final a resposta era tão simples... mas a pergunta ganhou vida própria.

E este episódio, como outros, faz-me pensar que a net, a blogoesfera, todos estes novos meios de comunicação são uma invenção fantástica.

A verdade é que foi preciso vir para Amsterdam para acompanhar e de certa forma participar também na vida de algumas pessoas.

Acho que já escrevi aqui que esta vida faz tudo para nos separar.
Quando damos por ela estamos embrenhados no trabalho, na casa, nos problemas, e vamos perdendo o contacto com pessoas importantes para nós.
Por outro lado, se há coisa que eu aprendi é que é difícil viver longe da família e dos amigos, perder aqueles momentos em que estamos todos em volta da mesa a falar ao mesmo tempo, aqueles momentos de pura vivência, puro convívio.

Por tudo isto, espero que quando eu regresse a Portugal esta vontade de estar fisicamente presente não passe, que pelo facto de estar ali perto não fique mais longe.
Espero que estas amizades que criei ou estreitei à distância não se percam no ritmo do dia-a-dia.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Um suspiro...

...e já é sexta feira outra vez.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Gioconda

A Gioconda é a cadela que nos encontrou. Literalmente. Não fomos nós a adopta-la como animal, mas ela a adoptar-nos a nós como donos.
Um dia estava a chegar a casa e lá estava ela no jardim:
Olha, um cão! - disse eu.
Era uma cadela. Pensei que fosse de alguém que estava de visita, ou que a minha mãe soubesse alguma coisa do assunto. Não sabia.
A cadela tinha aparecido misteriosamente em nossa casa, e por isso mesmo resolvi chama-la assim: Gioconda. O acordo era se ela não se fosse embora, nós também não a púnhamos fora.
E assim foi.
A partir daí foi um sem número de episódios insólitos, com a nossa Gioconda sempre a tentar sair para passear, a insistir em saltar para dentro da mala do carro e vir connosco onde quer que fôssemos. Teve o cio e andámos a enxotar cães dias seguidos. Emprenhou, teve dez cachorros lindos de morrer e todos sobreviveram, e lá fui eu e o T. com eles num cesto de lenha para a feira de Tires. Tivemos de a operar para evitar que acontecesse de novo, e lá a trouxemos meia drogada e com uma espécie de fralda. Uma vez fomos com ela a um veterinário em Lisboa que era uma autentica personagem e falava para a parede em vez de falar connosco.
Sempre se portou bem, sempre foi obediente, nunca se virou contra ninguém e sempre foi de inteira confiança, mesmo logo desde o início.

Morreu hoje.
Foi uma boa cadela, uma boa amiga e uma óptima companhia, e eu vou ter muitas saudades dela.

Se é verdade que esta vida é só uma passagem, espero poder encontrar-la de novo um dia. Espero que ela me perdoe não ter sido a dona perfeita (longe disso).
Espero que ela me escolha como dona outra vez.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

NKOTB II


E respondendo ao comentário, o meu era obviamente o Jon. (gostei do "obviamente" nesta frase)
O tímido, o low-profile, o que passa despercebido - my style!
Aquele que provavelmente nem sequer cantava, e estava lá apenas para fazer número.

Nem preciso dizer qual é, que para bom entendedor meia palavra basta!
(é o da t-shirt vermelha - feio que só visto!)

E o teu, qual era?

Portunhol, italianol, espanhol

A R. e eu falamos espanhol entre nós.
É uma coisa que muita gente acha estranho, porque raio uma italiana e uma portuguesa falam espanhol entre si, mas se há coisa que aprendi nesta terra (e é assim com toda a gente) é que a língua que começamos a falar quando conhecemos uma pessoa, é a língua que falaremos para sempre.
Eu e a R. começamos a falar em espanhol porque essa era a língua "oficial" da nossa equipa de trabalho na altura, apesar de em 5 pessoas apenas um ser de facto espanhol.

Com o passar do tempo, com as mudanças no trabalho, e com a nossa aproximação, a R. e eu acabámos por desenvolver o nosso próprio idioma, ali algures entre o espanhol de Espanha, de El Salvador e da Venezuela, entre o português e o italiano.
E claro, entendemo-nos muito melhor uma à outra do que àqueles que falam espanhol como língua materna, que ficam a olhar para nós de boca aberta com as expressões e palavras que vamos inventando à medida da necessidade. E tentam corrigir-nos, mas lá está, se falássemos um espanhol perfeito já não seríamos nós.

É como construir uma amizade num cantinho da torre de Babel.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

NKOTB

E depois de filosofar sobre o tempo, só mesmo esta notícia para me fazer rir!

They're back!
(e nem me atrevo a pesquisar de quando é o seu último álbum...)

Lindo!

Tempo

Hoje em conversa com a R., que completa em breve 34 anos, fiquei com a sensação que se até aos 30 a nossa vida anda rápido, depois então nem se fala. Durante uns anos andamos naquela a contar os anos e quantos faltam para os 30 e ah e tal que está quase... depois de um dia para o outro já passou há uma data de anos sem se dar por ela.

Como o ano 2000. Durante quanto tempo andámos nós expectantes, e se vai acabar o mundo ou não, e o bug do milénio e de repente já lá vão 8 anos...

Já para não falar na Expo, que nunca mais abria e que se contavam os dias um a um num calendário na Praça de Espanha, e nós lá passávamos a caminho da faculdade no 56 sempre na expectativa. E aí vão 10.

E o Euro 2004, esse acontecimento longínquo, com a campanha de candidatura, a construção dos estádios e nunca mais chegava...

É estranho ter consciência de que a partir daqui ainda é mais a abrir, apesar de ainda não ter a noção do quão rápido corre o tempo. Vamos marcando o futuro com metas que nos parecem longe e num instante passam, e passam e passam...

Assusta-me.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Últimos filmes


Ontem fomos ver o Control (finalmente!), que conta a história de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division. Gostei bastante, mas confesso que estava à espera de mais profundidade, mais processo criativo, mais entrar um pouco na cabeça do protagonista. Talvez a expectativa, depois de tanto ouvir falar bem, estivesse alta demais mas cheguei ao fim com a sensação de que o filme podia dar um pouco mais. Mas gostei, e sobretudo tem uma banda sonora fantástica.


Este 4 meses 3 semanas e 2 dias vimos em casa, já que não dominamos nem o romeno (apesar das parecenças com o português, é incrível) nem o holandês o suficiente para perceber as legendas no cinema. É o que se pode chamar um soco no estômago. Um filme tão duro que até dói fisicamente quando o vemos. Brutal. Uma história simples mas que nos toca, principalmente a nós mulheres.

Aconselho tanto um como o outro, por razões completamente diferentes.

sábado, 26 de janeiro de 2008

União de facto

Só reparei hoje que no dia 18 não só fez 2 anos que viemos para a Holanda, como também fez 2 anos que estamos a viver juntos - ou seja, temos oficialmente uma união de facto, estamos perante a lei como se fôssemos casados.
Tipicamente nosso, o facto de nem nos termos lembrado. Aliás, nesse dia nem nos vimos.

Nunca ligámos nenhuma a datas.
Nunca no primeiro ano de namoro festejámos os meses. Aliás, já estávamos juntos há bastantes meses quando alguém nos perguntou em que data começámos a namorar. Não fazíamos ideia, tivemos de pensar no assunto, mas tínhamos várias datas que poderiam servir. Escolhemos o dia 9 porque nos lembrámos que tínhamos ido jantar para festejar os 3 anos e meio de JB e nessa noite resolvemos assumir o nosso caso aos nossos companheiros de viagem - mas no fundo, a resolução ocorreu já passava da meia-noite, ou seja tecnicamente já era dia 10. Não interessa.

Do mesmo modo não sei dizer se o dia 18 foi o dia que chegámos à Holanda ou saímos de Portugal (tenho uma agenda desse ano guardada algures, é uma questão de procurar e confirmar) mas nem interessa.

Parabéns a nós, que somos unidos de facto.
E somos, de facto, unidos.
E isso é que é importante!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Happy Friday!

Hoje é sexta-feira... ganda pinta!

E amanhã o T. está de folga - desde Agosto que não estava de folga a um dia de fim-de semana.
(excepto no Natal e quando fomos a Portugal, mas é diferente...).

Um dia inteiro só para nós os dois... tão bom!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Madrid...

E não é que hoje no trabalho recebi uma chamada técnica da Fundação Thyssen-Bornemisza!

"Llamo de la Fundación Thyssen y tengo aquí un problema con mi aparato, a ver si me puedes ayudar..." Fiquei logo de antenas no ar! Curioso como cada um fica atento ao que lhe diz mais, apesar de ser uma chamada igual às outras só de pensar que o senhor me estava a ligar ao vivo e em directo desde um dos maiores museus de Madrid até me senti mais motivada para o ajudar!

No final perguntou-me "Y donde puedo comprar vuestra marca aquí en Madrid? Estamos en el Paseo del Prado..."

Pois eu sei onde estão - aqui - e por momentos só queria ir para lá também!
Pelo sim pelo não, anotei o nome e o número de telefone do senhor no meu bloquinho de notas... nunca se sabe!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Eis senão quando...

Desde dia 14 que integrei uma nova equipa na empresa. Visto de fora, e de dentro também, foi uma espécie de despromoção.

Quando comecei a trabalhar éramos uma equipa multi funcional: tínhamos contacto com os usuários finais (questões técnicas) e uma carteira de clientes/parceiros comerciais (tão estranho ter de traduzir estes termos...) cada um (questões logísticas).
Depois dividimos as tarefas, e eu passei a ter apenas contacto com os clientes/parceiros comerciais.
Desde dia 14 que passei para a equipa de atendimento ao usuário final.

A minha principal queixa em relação a este emprego, em todas as equipas, é o facto de estar sempre a resolver problemas dos outros, e não criar nada de novo.
Basicamente sentia-me (e sinto) a atrofiar, a não estimular a criatividade (e não me venham com essa de que a criatividade se usa em tudo na vida e blá blá blá, que eu sei que vocês sabem o que quero dizer). Sinto a falta de chegar a casa com entusiasmo no trabalho, com vontade de partilhar o que aprendi e ir no comboio a anotar ideias.

Eis senão quando me foi atribuído (temporariamente, claro, já que só me faltam 6 semanas de trabalho) a responsabilidade de desenvolver um projecto. Daqueles mesmo bons, criados desde o nada, apenas com umas linhas gerais já traçadas e muitas mais por traçar.
Passei a tarde (e amanhã vou passar a manhã) a ver o que já foi feito, a delinear umas coisas, a investigar nos sites da concorrência, a descobrir e a ler artigos a respeito.
E de repente, parece que nasci outra vez! Claro que o projecto em si não tem nada a ver comigo, mas pela primeira vez em meses e meses e meses sinto que construi qualquer coisa, que saio dali mais preenchida.
Que bom pensar que tenho 6 semanas que não vão custar tanto a passar, e principalmente, que bom pensar que quando me for embora, deixo qualquer coisa feita.
Qualquer coisa mais que problemas resolvidos.

Afinal estou mesmo contente com esta despromoção!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Temporal

Chuva, vento e bicicleta são coisas que não combinam.
E juntar um casaco que ensopa a este trio maravilha?
Quem me conhece imagina o meu bom humor hoje de manhã a chegar à estação...

Bela maneira de começar a semana, sim senhor!

Há coisas de que não vou ter saudades NENHUMAS!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Ontem...




...estava uma chuva miudinha que eu odeio, mas que criou este efeito na árvore que se vê da janela da cozinha.

Party girl

Este fim de semana saí à noite na sexta (despedida de uma colega no Molly's) e no sábado (housewarming party em casa da R.).

E chego à conclusão (ou melhor, confirmo...) que já não tenho 20 anos.

sábado, 19 de janeiro de 2008

2 anos

Fez ontem 2 anos que viemos para a Holanda.

Noutra vida, portanto...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Telejornal

Temos visto o Telejornal nestes últimos dias, através do site da RTP.

Ontem houve a notícia de uma possível fuga de gás para os lados do ISCTE. Hoje soube-se que afinal tinha sido alguém da Faculdade de Farmácia que tinha despejado uma substancia altamente tóxica para o meio do descampado. Uma senhora que estava a mandar lixívia para a zona para abafar o cheiro chamou filho da p*** aos jornalistas. Hoje de manhã um grupo de senhoras da limpeza do ISCTE (muitas de cabelos brancos, lá está) davam o seu testemunho sobre as reacções ao mau cheiro, e houve uma que se fartou de tossir e foi mesmo para o hospital.

Outra notícia. Em Penamacor, num treino de uns aviões militares houve um ruído tão forte que danificou casas, e pôs uma criação de coelhos em polvorosa. Os coelhos todos cheios de stress. Mais testemunhos da população local.

Ficámos os dois meio aparvalhados a olhar para aquilo. Se não ouvíssemos o som diriamos que se tratava de uma notícia na Bósnia ou na Roménia ou coisa parecida.
As pessoas são feias (mas mesmo feias!), as casas também são feias, o país é pobre e de Terceiro Mundo. Pelo menos assim à primeira vista.

Já nem falo nas notícias em si, porque acredito que coisas destas acontecem em todo o lado (ou se calhar não, mas adiante), mas ver um Telejornal assim de fora, e reparar nestes pormenores é muito deprimente. Somos (ou estamos) um país um bocado triste.

Ai ai ai... prevejo grandes dificuldades de adaptação...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Linha de pensamento - um recado escondido, agora a descoberto

É incrível a capacidade de divagação da nossa mente. Como nos lembramos de uma coisa, que nos leva a outra e a outra e a outra.
Hoje em conversa com o T. tive este seguimento de pensamentos, por esta mesma ordem.
Foi uma questão de segundos, passei do 1) ao 8) sem dar por ela.
Estou há que tempos para comentar com a pessoa em questão o ponto 8, mas lá está, por uma razão ou por outra vou deixando passar.
Aqui fica para a posteridade:

1) A R. vai dar uma festa no sábado, e eu fiquei de convidar a I. e os amigos para irem também. O objectivo da festa é conhecer novas pessoas.
2) Em Santiago também demos uma festa em nossa casa, e também apareceram muitas pessoas que não conhecíamos.
3) Entre essas pessoas estavam duas francesas, e eu e o F. acabámos a noite numa discoteca com elas, eu a pensar que elas tinham vindo à nossa festa por serem amigas dele, ele a pensar que eram minhas amigas.
4) Essas francesas apareceram em nossa casa meses mais tarde a perguntar se tínhamos algum quarto disponível. Como não tinham o nosso número não nos podiam ligar, e por isso apareceram lá assim do nada (nunca mais as tínhamos visto desde a festa).
5) Exactamente em baixo da nossa casa havia o café A Codorniz, muito giro, onde tanto se podia tomar o pequeno-almoço como beber um copo à noite. A Codorniz a dada altura virou moda, e era muito prático porque sabíamos que sempre que lá íamos encontrávamos alguém, e quando não estava ninguém em casa já sabíamos que estavam n'A Codorniz.
6) Quando vivi na Parede e vagou a Vedior no andar de baixo tive muita esperança que fosse para ali um café engraçado, mas afinal foi para lá uma Igreja Universal Alternativa (que me acordava aos domingos de manhã, mas adiante)
7) Nenhum dos meus amigos tem um café em baixo de casa onde nos possamos encontrar, o que é uma pena. Um café onde não fosse preciso combinar, onde nos pudéssemos encontrar a seguir ao trabalho ou depois do jantar.
8) Gostei muito (e este é o meu ponto final e o objectivo deste post) da casa da M.J. em Porto Salvo, não só pela casa em si mas também pelo bairro, e pela presença do café Flor de Porto Salvo (com direito a pires com sal grosso e ovo cozido na montra) mesmo à porta. Imagino-nos a beber uma cervejola ali no larguinho (e se tiveres uns tremoços em casa até os podes mandar pela janela, M.J!). Gostei bastante da casa por dentro, mas do que eu gostei mesmo foi daquele bairro. Acho que é um bairro com carácter.

Este comentário 8 devia estar aqui no meu subconsciente à espera de uma oportunidade para vir à superfície.
As voltas que ele deu!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Pfffffffffffffff.............

Queimámos a sopa...

Tanto trabalhinho para ir directamente pela retrete abaixo (literalmente)...
:(

Deve ser castigo por ter dito "chiça" no meu blog.
Agora digo mais: irra, apre, que maçada!

É caso para dizer: "No soup for you!"

Mas porquê?

A partir de uma certa altura da vida, de cada vez que começo uma frase com
"Tenho uma novidade!"
Ouço sempre:
"Tás grávida?"

Chiça!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Mais um passo

Agora sim, parece que tudo é mais real.
Até aqui poderia ser apenas uma ideia, um projecto. Agora é mesmo a valer, não há volta a dar. Ponto sem retorno.

E foi difícil.

Hoje contei ao L. que nos vamos embora, e que não vou querer renovar o meu contrato.

O L. é aquilo que se pode chamar o protótipo do anti-chefe. Foi das primeiras pessoas que conheci quando fui à entrevista, lembro-me que levava o nome dele escrito num papel para não me esquecer (e esse dia aconteceu noutra vida...há tanto tempo). Imaginava-o o típico executivo de fato e gravata, e pasta a condizer. Apareceu-me um latino-americano de crista no cabelo, pêra, argola na orelha e ténis. Houve ali uma identificação imediata. Diz ele que escolhe as pessoas com quem trabalha nos primeiros 10 segundos depois de as conhecer. Eu lembro-me de sair da entrevista a pensar que tudo o que podia ter corrido bem tinha corrido bem. Depois acabei por não ficar com o lugar naquela altura, mas sei que não foi por acaso que passei mais dois ou três meses sem receber nenhuma resposta de trabalho. Estava destinado que eu pertencia àquela equipa. A sensação que tinha tido durante a entrevista não fora em vão.
Durante 1 ano trabalhamos juntos, e claro, chefe é chefe e também ele tem as suas pancadas, mas à medida que nos fomos conhecendo fomos sempre descobrindo pontos em comum. Em algumas coisas somos de facto muito parecidos.

Por tudo isto eu sabia que não ia ser fácil. Sei que para ele foi uma completa surpresa, mas tentei a todo o custo que ele soubesse que para mim também não vai ser fácil deixar tudo isto para trás, deixa-lo a ele e à nossa equipa nuclear (a primeira de todas, apesar de já não ser a actual). E dói-me pensar que havia projectos para mim, e que apesar de tudo, eu falhei as suas expectativas.
Não tenho de me sentir culpada por isso (e não sinto), porque sei (tenho a certeza absoluta) que estamos a tomar a decisão certa, mas não deixo de ter a sensação de estar a causar uma desilusão.
E hoje desiludi um amigo.

Esta experiência tem muito de Erasmus, mas não é um Erasmus.
Já não tenho a idade que tinha quando fiz o Erasmus. Estou cá também há tempo suficiente para de facto aprofundar as relações e criar laços. Nada disto tem a "leveza" (já pesada) do Erasmus. E também não tenho a inocência do Erasmus, de acreditar que vamos todos ficar amigos para sempre, e que nos vamos visitar e manter o contacto.

É muito difícil tomar estas decisões. É duro e triste.
Mas são todas estas experiências que nos enriquecem também.
E eu não trocava esta riqueza por nada.
Nada.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Oh Oh Oh...


Olha o que o meu blog recebeu!

Parece que a Sofia, além de começar a gostar de cores, acha que este blog não é mau de todo e que é merecedor desta distinção!

Muito obrigada!

Aqui ficam as regras da praxe:
1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que considerem serem bons (entende-se como bom os blogs que costumam visitar regularmente e onde deixam comentários);
2. Somente se recebeu o "Diz que até não é um mau blog", deve escrever um post contendo: a indicação da pessoa que lhe deu o prémio com um link para o respectivo blog, a tag do prémio, as regras e a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio;
3. Deve exibir a tag do prémio no seu blog, de preferência com um link para o post em que fala dele.

Eu não tenho 7 blogs para passar, porque como sabeis sou muito selectiva, por isso vou distinguir apenas um.
Como é colectivo, vale por muitos: Copines, diz que o vosso blog também não é mau!

http://www.devaneiossingelos.blogspot.com/

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ladri di biciclette...

...andam por aí, e hoje foi a vez da minha...

Temos pena :(

Uma vez bicicleta roubada sempre bicicleta roubada!
E ladrão que rouba ladrão....

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Diálogo antes de escrever o post anterior

Eu - Ó love, não olhes para mim a escrever senão eu fico com "writer's block"...

T. - Tu não és uma writer, por isso não podes ter "writer's block".
Eu também não posso ter pé-de-atleta, porque não sou atleta.

(queriiiiiiiaaaas!)

O meu amor de tia é óbvio

O meu sobrinho F. tem a certeza absoluta que eu o adoro. E claro, tem toda a razão.

Duas situações em que ele provou que sabe o que sinto por ele:

1) Eu com a M. ao colo, a L. e o F. um de cada lado para tirar uma fotografia:
Eu - "Vamos tirar uma fotografia a dar um beijinho à M., para quando ela crescer saber que nós gostamos muito dela."
F. - "Oh, ela sabe..."
Eu - "Sabe? Sabe como? Tu por acaso sabes se eu gostava de ti quando tu eras pequenino?"
F. - "Tu? Tu SEMPRE gostaste de mim!"
(Ora toma!)

2) Agora nestes dias de Natal, no meio da confusão, acabei por não contar a toda a gente que vamos regressar a Portugal. Contei à mãe e ao pai, sei que contei ao F. quando me despedi dele, mas escapou-me contar também à sua mãe que acabou por saber pelo blog. Vai a mãe contar a novidade ao filho e este, claro, não só diz que já sabia mas também de cada vez que se toca no assunto "a Mary e o T. vão voltar" responde - "Graças a quem??" (não é demais?)
O F. acha que nós vamos regressar a Portugal por causa dele.

E acha muito bem!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Para quem se preocupa com questões ligadas à criatividade e à educação

Mães de 3 e mais 3 e mais 3

As mulheres da minha família nuclear são todas mães de 3 filhos. Bastava ler os comentários do meu blog para perceber.

Aquilo que eu vos peço, ó mães da conta que deus fez, é que sejam originais nas alcunhas com que assinam os comentários, de modo a evitar confusões!

Não precisam, no entanto, de revelar a vossa identidade, que isto dos comentários anónimos tem uma certa piada não tem?!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Amigas


Este foi um dos meus melhores presente de Natal.

Já tive outros desenhos da M. mas este é o primeiro figurativo (e assinado pela própria!) e mais importante ainda, foi a primeira vez que ela de sua vontade decidiu fazer um desenho especial para mim.

E o melhor de tudo é o tema: "És tu e a minha mãe!"

Se há coisa de que tenho o maior orgulho é de ter os AMIGOS que tenho, amigos não só com A grande mas com todas as letras grandes. Já disse aqui que os meus amigos são parte de mim, são a minha herança e andam sempre comigo onde quer que eu vá.
(apesar de o saber desde sempre, parece que foi preciso vir para longe para me aperceber ainda melhor da vossa importância e do papel fulcral que vocês têm na minha vida).

Sem nos apercebermos estamos todos a ensinar a uma criança (e a outra e a outra...) o verdadeiro valor da amizade.
Tenho orgulho também que a M. cresça com o nosso exemplo, que cresça a saber que pode contar sempre connosco e que nós também somos a sua família.

É claro que fico a babar quando recebo um desenho como este.
Ela sabe que eu e a sua mãe somos amigas de verdade. Para a vida.
(e estamos tão giras!)

Esta miúda enche-me as medidas.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Quando for para Portugal quero ter na minha casa:
  • uma cama alta
  • um edredon de casal
  • um sofá sem mantas por cima
  • alguém que faça limpezas
(acho que não é impossível!)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Coisas parvas que odeio e que me acontecem nesta fase da vida

  • andar de bicicleta contra o vento
  • desligar o telefone de uma chamada e ter outra logo a seguir
  • atrasos nos comboios
  • sentir a chuva a entrar no casaco

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

As minhas resoluções e planos de ano novo

Nunca fui muito de pedir desejos para o novo ano, mas sempre fui de fazer listas de resoluções e planos.
Aqui vão (também posso ir acrescentando)

  • regressar a Portugal - e no fim de muita expectativa, indecisão, dúvida e hesitação é mesmo oficial: regressamos a Portugal no final de Março.
  • voltar a trabalhar na minha área, seja por minha conta ou por conta de outrem
  • emagrecer - (esta é um clássico!)
  • frequentar o ginásio, esteja eu onde estiver
  • ter mais cuidado com a aparência - fiquei traumatizada com o desleixo das mulheres portuguesas
  • ler mais
  • ir ao dentista
  • ir ao ginecologista
  • fazer a maioria dos presentes de Natal 2008, e não comprar
  • estar presente nos nascimentos de 2008
  • estar mais com amigos de todos os dias, e com os que vejo só de vez em quando
  • combater o conformismo em todas as áreas da minha vida - ser menos preguiçosa
  • ir a Atenas
  • passar no mínimo uma semana de férias na costa alentejana
  • ir à praia sempre que possível
  • arrumar o meu quarto em casa dos meus pais (mãe, esta foi especial para si!)
  • tirar todos os caixotes e caixinhas e estantes e livros e sacos que tenho em casa dos pais do T. - ou seja basicamente deixar de ter coisas espalhadas um pouco por toda a parte
  • ir ao museu Berardo (que não fui nas férias)
  • andar de patins no paredão de Oeiras (também não fiz)
  • ir ao Santini muitas vezes
  • caminhar no paredão de Cascais ao fim-de-semana
E ainda:
  • ir ao dermatologista
  • tentar não reivindicar a autoria de ideias

Considerações sobre Portugal aos olhos de uma emigrante

(tópicos que vou escrevendo à medida que me for lembrando)

  • as mulheres portuguesas não se produzem, não se maquilham e são desleixadas na sua aparência
  • as casas de banho públicas em Portugal são um nojo completo e não há palavras para descrever tanta falta de higiene
  • em Portugal as pessoas velhas têm de trabalhar - coisa que por cá não se vê são homens ou mulheres de cabelo branco a limpar escadas ou a varrer o lixo (e não é por pintarem o cabelo)
  • a luz de Portugal é a mais bonita de todo o mundo e não há nada que se compare à luz do crepúsculo, que é também única no mundo
  • em Portugal vive-se o fenómeno Nespresso - toda a gente tem ou vai ter, toda a gente fala dos cafés, do roxo do preto e do castanho, das descalcificações e das encomendas e dos pacotes de boas-vindas
  • em Portugal come-se muito bem, e mesmo as porcarias que se comem são menos porcarias e são mais autenticas do que cá
E ainda:
  • em Portugal todos vivem sob o fantasma do Euromilhões. "Quando eu ganhar", "se me sair" ou "se ganhasse" o Euromilhões são frases recorrentes, mas que no fundo não dizem nada. Até agora ainda ninguém que eu conheço ganhou.

Fim do Ano - o rescaldo

Foi também um fim de ano diferente - o ano 2007 marcou pela diferença e ainda bem.
A vontade de sair era pouca ou nenhuma. Estávamos já a ressacar de cansaço ainda antes da festa (ou seja a vir da festa antes mesmo de ir para a dita, como no célebre ditado popular "vimos da festa" - ler com entoação melosa e cansada)
A verdade é que nesta terra nunca apetece sair, seja pelo frio ou pela chuva, mas quando o fazemos nunca nos arrependemos. Nunca regressamos a casa a pensar "mais valia não ter saído".
Depois de uma sesta até as 20h30, resolvemos então que iríamos à festa sem pressa nem horas.

Por cá somos todos embaixadores do nosso próprio país. As nossas características tomam a forma de um povo inteiro. Pois como bem sabeis, estes dois exemplares da raça tuga não primam pelo planeamento nem pela organização, e eu especialmente não primo pela pontualidade no que ao lazer diz respeito.

Dito isto lá saímos rumo à casa alemã, que - oh coincidência! - morava perto da zona onde me perdi há umas semanas atrás, para ser salva pelo meu cavaleiro da meia-noite; não sem antes verificar na net o melhor percurso.
Pois que o inevitável aconteceu, e claro que nos perdemos pelo caminho. Eram os minutos a passar e nós a pedalar rumo ao infinito, no meio de autênticos bombardeamentos de fogo de artifício! As 23h45 resolvemos desistir de tanto pedalar e optar por aceitar a nossa sina de entrar em 2008 sozinhos e no meio da rua. Vamos ao menos procurar uma rua gira - disse eu.
E claro, como é tipicamente nosso (mas tão típico que já aconteceu vezes sem conta), mal desistimos de procurar a rua da festa demos logo de caras com ela! Foi acelerar até à porta, estacionar a bicicleta a correr e tocar à porta eram 23h55! Quase em cima da hora!
Fomos a anedota da noite! "they are portuguese, and they're always late!"
Por pouco não era tarde demais!

Quanto ao resto da noite passou-se muito bem entre fogos de artifício e garrafas de espumante, música e boa conversa, um ambiente 5 estrelas, multicultural e internacional como não podia deixar de ser.

Foi um excelente modo de entrar em 2008.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Natal - o rescaldo


Foi sem dúvida um Natal diferente. E no que toca ao Natal tudo o que é diferente acaba sempre por ter uma conotação negativa, porque o Natal é aquela época em que se repetem tradições e se tenta ao máximo mante-las vivas, e fazer exactamente as mesmas coisas, usar os mesmos objectos, repetir as mesas receitas ano após ano após ano. Não foi o caso.
Não digo que não me tenha custado um bocadinho, mas estava feliz por poder partilhar um Natal de que ouço falar há anos, no fundo o Natal que tem verdadeiro significado para o T. - será isto o verdadeiro casamento? partilhar tradições que não são nossas, um ano tu por mim um ano eu por ti? Diz que sim e assim seja.
Até à consoada (palavra mais que repetida nesses dias) não me senti verdadeiramente no Natal. O meu dia 23 de Dezembro costuma ser sempre na cozinha a fazer rabanadas com a minha mãe - é o famoso "rabanada day", em que juramos todos os anos fazer rabanadas sem ser no Natal e nunca cumprimos. O dia 24 é passado nos preparativos: pôr a mesa (que implica lavar pratos e copos que só se usam nessa noite), pôr a mesa das crianças médias (que somos nós os da casa dos 20 - para o ano teremos de alargar o limite da idade pois eu serei já trintona por altura do Natal), pôr a mesa das crianças pequenas (normalmente no meu ex-quarto - se a família continua a aumentar assim teremos de pôr mesa também na casa-de-banho), descascar batatas cozidas, desfiar bacalhau, cortar ananás, abanar o tacho de vez em quando para não agarrar.
Este ano o meu dia 24 começou com pão acabado de sair do forno de lenha, seguido de uma visita guiada ao próprio feita pela matriarca da família. Anos de experiência de uma arte que nos é completamente estranha. Saberes do campo, ligados à terra, onde tudo se aproveita e tudo se transforma, onde de facto tudo faz sentido.
Seguiu-se um dia de turismo - há quanto tempo não fazia eu turismo em Portugal? Há quanto tempo não passava um dia assim na aldeia, a sentir o cheiro das lareiras entre as casas de granito? Ouvir o silencio da paisagem, ver um pôr do sol daqueles que nos fazem sentir pequeninos, ver as estrelas, cumprir uma tradição secular, assobiar canções de Natal.
De regresso a casa da avó, reunir a família em volta da mesa. Foi um Natal intimista, feito de conversas cruzadas, fotos de família, e de histórias antigas contadas pela avó (esta foi a minha parte preferida da noite). Depois da troca de presentes, uma cartada que é também tradição todos os anos.
No dia seguinte, o regresso. Com o coração quentinho e cheio de boas recordações.

Foi bom. Muito bom.

Bom Ano!


(temos calendário novo!)