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sábado, 8 de março de 2008

Crónicas dos primeiros tempos - a casa do Sul


Ao fim de 2 dias a tentar marcar encontro com o Tony (liga, combina, ele liga a marcar para mais tarde e depois liga a desmarcar e assim sucessivamente) lá nos encontrámos com ele. Apareceu na sua carrinha, ainda hesitámos em entrar mas basicamente não tínhamos opção, e levou-nos ao Sul de Rotterdam. A ideia inicial seria alugar um quarto. Levou-nos a ver um quarto que tinha livre num apartamento provavelmente habitado por animais selvagens... estava um calor de morrer, havia móveis virados ao contrário, comida e roupa espalhadas pelo chão, e o rapaz que lá vivia tinha desaparecido (sem pagar o que devia ao Tony, obviamente). Temos Tony furioso, e este quarto não era definitivamente para nós.
Fomos ver um apartamento que não estava em muito melhores condições (ao T. ocorreu de verdade que ia haver um sem-abrigo aninhado no sofá quando entrámos). Aquilo que ele nos explicou foi que, mais uma vez o casal que lá vivia não lhe pagava a renda há meses e ele decidiu correr com eles. Basicamente a casa estava como eles a tinham deixado. Com roupa espalhada, uma chávena de café em cima da mesa (a mesma mesa de onde escrevo agora mesmo), e uma infinidade de objectos pessoais. Apesar do estado, a casa em si não estava nada mal. Depois de regatear o preço da renda fomos para casa (ou seja para o Suriname) pensar e tomar uma decisão. A verdade é que não havia muito por onde escolher e a decisão foi fácil de tomar.
No dia seguinte confirmámos ao Tony que ficávamos com a casa.
E as coisas? Que fazer com as coisas? Podem deitar fora tudo o que não quiserem, foi a resposta.
E assim foi. Munidos de luvas, máscaras e toda uma panóplia de produtos de limpeza e desinfecção lá fomos tornar a nossa casa habitável.
Havia uma infinidade de objectos parvos e anormais. Havia cotonetes (limpas, valha-nos isso) espalhadas por toda a casa. Havia uma fruteira cheia de moedas de 1 cêntimo. Havia uma mala com roupa. Havia uma caixa dos Correos espanhóis cheia de cartões magnéticos em branco (altamente suspeito...).
Subimos e descemos a escada íngreme vezes sem conta para deitar fora tudo e mais alguma coisa. Ao fim de 1 dia tínhamos a casa pronta a habitar. Dissemos adeus ao Suriname e mudamo-nos para a nossa 1ª casa.
Uma semana e uns dias depois da chegada tínhamos encontrado casa.

E foi uma casa que nos marcou, e de que maneira.
Há momentos que não vamos esquecer:
  • quando o ex-inquilino veio perguntar pelas coisas dele, especialmente pela sua cama
  • quando veio um senhor inspector do gás e eu e o G. fomos super simpáticos com ele, demos-lhe água e fomos buscar um banco para ele subir e tudo, para depois percebermos que ele nos ia fechar o gás por engano
  • quando apareceu o Nino
  • quando vieram inspectores analisar o esquentador e tirar fotografias a tudo e pedir os nossos passaportes num sábado de manhã em que tínhamos a minha irmã, cunhado e sobrinhos de visita (que tiveram de apresentar os bilhetes de avião e tudo)
  • quando o T, descobriu uma surpresa na gaveta do forno
  • quando tivemos 6 ou 7 amigos a dormir um pouco por toda a parte
  • quando a casa ficou à venda
  • quando uns meses depois de nos mudarmos fomos mostrar a casa aos meus pais e quando o T. mete a chave na porta de baixo dá de caras com um rotteweiller e só tem tempo mesmo de a voltar a fechar rapidamente
Era uma casa tão pequena tão pequena que no lavatório apenas cabia uma mão aberta, podíamos levantar o frigorífico para limpar por baixo, e no nosso quarto não cabia nada mais do que a cama.
Ficava depois do Maastunnel (um túnel debaixo do rio), e quem o atravessou não o esquece.
Ficava ao pé do supermercado Netto, de um bar que estava sempre às moscas, de uma loja de noivas, de uma loja de electrodomésticos onde comprámos a nossa varinha mágica, de uma sex-shop.

Uma casa com muitas histórias para contar...

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Crónicas dos primeiros tempos - bater no fundo

Na primeira semana que passámos na Holanda houve dois momentos a que chamámos "bater no fundo", ou seja, quando vimos a coisa tão grave que pusemos em causa tudo e mais alguma coisa. O que valeu é que tivemos esses momentos em diferido, e não os dois ao mesmo tempo, pelo que deu para nos aguentarmos e não desistir.

Quando o T. bateu no fundo
Foi logo 2 dias depois de chegar.
Combinámos com a N. encontrarmo-nos na manhã de sábado - ainda não tínhamos estado com ela. Como é típico da N. resolveu combinar um café com a sua melhor amiga de cá nessa mesma manhã. Lá fomos. A amiga era inglesa, muito simpática à primeira vista, super despachada e cómica. Conversa puxa conversa e claro, o inevitável assunto (que nos persegue desde então) do "então porque é que vieram?" surgiu à baila. Lá explicámos um pouco o porquê da nossa decisão. Depois foi o descalabro. Ela resolveu não só dar a sua opinião sobre o país, mas também se pôs a desenrolar um sem número de dificuldades que iríamos enfrentar e de erros que já estávamos a cometer. E o pior de tudo é que a N. lhe fazia coro e dizia que sim.
Que nunca iríamos falar o idioma de modo perfeito, que sem falar holandês íamos ter graves problemas ("the language will definitly be an issue" - parece que a estou a ouvir), que as casas são caras, que os holandeses são frios e antipáticos e não ajudam ninguém, que foi uma estupidez termos trazido o carro, que os parquímetros são caros e que assaltam os carros estrangeiros. À medida que iam saindo palavras daquela boca eu e o T. íamo-nos sentindo cada vez mais pequenos, cada vez a diminuir mais de tamanho tipo Alice não no país das Maravilhas, mas no país dos Horrores. No fundo ela estava cá porque o namorado, agora marido, é holandês, e não compreendia como podíamos nós vir para cá por opção. Até aqui eu até compreendo, mas aquilo que eu não esqueço foi a atitude da N., a concordar com tudo o que ela dizia - quando muitas das decisões que tomámos foi baseados na opinião dela nas semanas anteriores.
Apesar de toda esta negatividade, eu pessoalmente não fiquei muito abalada pois estava confiante na nossa sorte, e tentei não dar importância à coisa. Depois do café a amiga foi embora e nós fomos almoçar. O T. nem conseguiu comer...
Quanto à amiga, o mais estranho é que nunca mais a vimos. Nunca mais houve ocasião de voltar a tomar café com ela, apesar de ela ter muito contacto com a N. e nós na altura também. Sei que casou e que agora vive em N.Y. Era bem feita que alguém lhe fizesse o mesmo que ela nos fez a nós!

Quando eu bati no fundo
O meu bater no fundo ocorreu uns dias depois.
Depois de tratarmos das primeiras burocracias - So-Fi nummer, registar no consulado português, registar na Câmara Municipal - chegou a altura de procurar casa. Sabíamos que muitas agências de emprego só aceitavam quem tivesse morada na Holanda. Fomos então em busca de agências para alugar casa, e chegámos à conclusão que só podíamos alugar casa se tivéssemos contrato de trabalho.
É uma das situações típicas da burocracia deste país, que é o preso por ter cão e preso por não ter. Não temos casa porque não temos trabalho e não temos trabalho porque não temos casa.
Lá com opiniões de inglesas snob, ou dificuldades em tratar do carro podia eu. Mas nesse dia senti que me tiravam o tapete de debaixo dos pés.
Estávamos ainda na pensão dos surinameses (que para nós ficou "O Suriname") a pagar dia a dia, pois sabíamos que não podíamos ficar muito mais tempo.
Há uns anos atrás houve uma inspecção geral em toda a Holanda para deportar imigrantes ilegais - muitos deles viviam em pensões como esta e os donos receberam pesadas multas. Por isso a pensão se chamava Short Stay Accomodations, não fosse alguém pensar em ficar por lá 6 meses ou coisa que o valha. Resultado, chegámos à pensão e tivemos de ir falar com os donos, explicar que de momento estávamos sem casa e que teríamos de ficar pelo menos mais uns dias. Foi o descalabro II. Basicamente desfizeram a réstia de esperança que eu ainda tinha. Disseram literalmente que o melhor era ir embora da Holanda, que não vínhamos em boa altura, que trabalho só mesmo nas limpezas e que só lá para Março ou Abril. Disseram que não podíamos ficar, por muito que nos quisessem ajudar.
Ficámos os dois de boca aberta a olhar para eles, mas dissemos que pelo menos mais uns dias tínhamos de ficar - é que nem tínhamos outra hipótese.
O dono resolveu então ir falar com um português que estava também hospedado - o Sr. Rui, electricista - a ver se nos podia ajudar. Ora o Sr. Rui devia estar a fumar a sua erva no quarto quando fomos lá bater. Apareceu com uma grande moca naquela cabeça, e praticamente sem dizer coisa com coisa.
Quando demos por ela estávamos os dois numa cozinha minúscula, com o Sr. Rui pedrado a olhar para o mapa de Rotterdam à procura da Beurs - que é o centro, ou seja, mais fácil de encontrar impossível -para nos explicar onde era o Café Lisboa. Era ele em silencio a olhar e com o dedo à procura e os minutos a passar - só visto. Eu, do nervoso, comecei com um ataque de riso valente, sem conseguir parar. Era insólito demais. Ele continuava à procura da Beurs, o T. de vez em quando ia dizendo "deixe estar, nós depois procuramos". Não foi uma grande ajuda, mas ficou a intenção.
Foi a minha vez de pôr tudo em causa. Ali estávamos no meio da Delfshaven, em pleno Suriname, sem casa, sem trabalho, com 1000 tralhas e um carro à porta. Teria valido a pena?

Nessa noite ligámos à N. e dissemos que não podíamos arranjar casa através de uma agência, e pedimos que ela nos desse um contacto de alguém para alugarmos uma casa. Umas horas mais tarde ela ligou-nos com o telefone de um senhor chamado Tony, que alugava clandestinamente meia Rotterdam.
E depois de bater no fundo, o caminho só pode ser para cima.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Crónicas dos primeiros tempos - a chegada

Os nossos primeiros dias na Holanda foram no mínimo insólitos.
Aliás é assim para toda a gente, todos temos uma história para contar de quando cá chegámos. Esta é a nossa.

Chegámos a Rotterdam numa 5a feira à noite, sem sítio para ficar, apenas com umas folhas imprimidas da net com umas pousadas de juventude e afins.
Não podemos nunca obrigar ninguém a acolher-nos na sua casa, e a verdade é que a nós ninguém nos acolheu. E mais não digo.

Parámos em frente à Central Station para perguntar onde podíamos ficar e fomos parar à Witte de Withstraat ao Homehotel.
Nesse momento começou o stress do carro e das coisas que tínhamos trazido. Que fazer? Levar tudo para o quarto? Deixar o carro carregado? Optámos por um bocadinho das duas, e esvaziamos o carro até à metade, até conseguirmos fechar a tampa.



Estávamos na Holanda!
Era todo um mundo de possibilidades que se abria à nossa frente. Acontecesse o que acontecesse tínhamos conseguido pegar na nossa vida e fazer dela o que quiséssemos. E isso era o mais importante.

No dia seguinte pusemos pernas ao caminho e calcorreámos a cidade toda em busca de um hotel barato para ficar nos primeiros tempos.
Apanhámos uma chuvada descomunal, ficámos molhados até aos ossos e cheios de frio. Pode-se dizer que foi um dia bastante deprimente.
Comemos nesse dia os restos que sobraram da viagem, um resto de bola e panados que já tinham visto melhores dias, e leites com chocolate do Lidl, pois tudo o que víamos nos parecia caro e não tínhamos ideia de quanto dinheiro iríamos precisar no futuro.

De quanto dinheiro se precisa para começar uma vida nova? Ninguém sabe, e nós nessa altura (como agora!) não tínhamos a menor noção.

Andámos de pousada em pousada e nenhuma tinha quartos disponíveis ou adequados.
Lá conseguimos encontrar uma na Delfshaven, o bairro antigo de Rotterdam, com preços acessíveis, chamada Short Stay Acomodations (mais tarde íamos perceber a razão do nome) cujos donos eram do Suriname, e era super simpáticos e acolhedores. Lá fomos buscar o carro mais as 1000 tralhas (e se o arrependimento matasse tínhamos morrido mesmo ali) e lá subimos e descemos a escadaria íngreme vezes sem conta.

O quarto tinha um beliche e uma cama, com casa de banho (em separado como é típico cá, ou seja, WC para um lado e duche para o outro) ao fundo do corredor e cozinha. No nosso andar estavam também um hippie dos seus 60 anos cheio de tatuagens e dois inter railers. A higiene não era, digamos que, o forte do local, mas entre uma coisa e a outra lá nos amanhámos que também não somos muito esquisitos com essas coisas.


Nesse dia começou o frio. Um frio gélido, como nunca mais voltámos a apanhar cá.
E nesse dia apercebemo-nos que tudo ia correr bem, mas que se calhar não ia ser tão fácil como tínhamos imaginado.